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| Podemos Escapar da Barbárie? |
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Publicado na Revista PSIQUE Ciência e Vida n. 16 (Clique para ler em pdf)
Não só os índices de violência são elevados como a crueldade vem se intensificando e, pior, não vemos a luz no fim do túnel. A visão estritamente técnica do crime é que tem dificultado a utilização de soluções eficazes. A psicologia indica a origem da violência e a visão transdisciplinar, as formas de reverter esse quadro. A chave-mestra para entendermos a brutalidade insustentável na qual vivemos é a resposta à pergunta: - Quem vem primeiro, o ato violento praticado por um indivíduo em um assalto ou o ato violento que rompeu os vínculos do indivíduo com a sociedade organizada? Uma parte da resposta está na própria pergunta: vem primeiro o ato violento. O restante da resposta resumimos à frente: O que faz com que alguns de nós nos comportemos de forma construtiva socialmente e, outros se comportem de forma excepcional seja de forma socialmente valorizada (genialidade, por exemplo) ou socialmente destrutiva (seqüestro-relâmpago e estupro), se deve ao padrão de funcionamento psico-emocional estabelecido, no mais das vezes, durante sua formação. Como todo o nosso corpo, também o cérebro começa a se desenvolver ainda no útero e continua após o nascimento. Nossa vida emocional e intelectual se desenvolve durante toda a nossa existência e só por volta dos 20 anos de idade é que o cérebro se completa fisicamente! Nossos padrões de comportamento começam a se formar desde o útero e continuam essa formação, se consolidando ou se alterando, na infância e adolescência. É em razão da relação que estabelecemos com o mundo exterior, que construímos nossa identidade. Não há mais dúvidas de que um bebê não traz dentro dele o gen da maldade ou a má índole (não de forma imperiosa), que se atribui aos criminosos. Um bebê traz de forma imperiosa apenas a necessidade de ser reconhecido e aceito, e se desenvolve principalmente pela busca (motivação e estímulo) de reconhecimento e aceitação. Ao ser reconhecido e aceito desenvolverá fortes vínculos com quem reconhece suas qualidades e tentará retribuir, de forma adequada ou não, com afeto ou um diploma, uma promoção, o carro do ano ou atirando em policiais. Dessa forma nos tornamosPertinens (pertinentes) a uma pessoa (mãe?), uma família, um professor, uma empresa, um país ou a uma facção criminosa. Precisamos do outro (mãe, pai, amigos, professores, traficantes, etc.) para aprendermos a distinguir o certo do errado, o bom do mau. Seqüencialmente a linguagem é o meio através do qual ocorre a continuação do nosso desenvolvimento, quando as emoções deixam de ser o veículo privilegiado, ampliando-se (ou não!) o espaço do intelecto. Na Ação Ciência, buscando identificar novos Fatores de Risco, observamos que: - vínculos inexistentes desde o início, raramente permitem o desenvolvimento normal. Através dos vínculos emocionais, significativos por terem sido estabelecidos durante nosso surgimento, é que construímos nossa identidade-básica, que nos faz um serial-killer, assassino ocasional como no caso Richtofen ou o bárbaro num roubo como no recente caso João Hélio. Mesmo se fragilizados, na prática vemos os resultados efetivos do restabelecimento de vínculos saudáveis, no sucesso obtido em instituições como a SOS Aldeias Infantís e também em programas que têm outros objetivos como o Programa de Jovens daReserva da Biosfera. Do lado oposto é evidente o fracasso em instituições que objetivam recuperar jovens infratores, mas consideram apenas os fatores técnicos e não psicológicos e, ao invés de reconstituir os vínculos saudáveis com a sociedade organizada, acabam por criar ou fortalecer os vínculos dos assistidos, com as facções criminosas. Podemos sim escapar da barbárie: Podemos sim discutir a ampliação das penas, a redução da maioridade penal, a efetividade da justiça e o policiamento ostensivo, porém cada centavo gasto em criarpessoas construtivas (Pertinens) à nossa sociedade, trará muito mais benefícios no futuro próximo.
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