O planeta e a sociedade estão em perene mudança e o século XX foi pródigo nesses movimentos ou, ao menos, é deles que sofremos as influências mais significativas. Isso acontece porque maioria de nós nasceu no século passado e muitos, na metade dele ou mesmo antes. Estamos, então, em transição e não nos apercebemos ou não temos controle de processos que nos afetam. Nesses 50 anos as alterações sócio-econômicas foram significativas e tornaram nosso quadro social lábil como uma tela de Van Gogh.
No Brasil a industrialização se consolidou nesse século e seu desenvolvimento, se continua, foi superado pelas áreas de serviços. Já vivemos a era do marketing e da tecnologia.
E as pessoas? Cada uma, dentro de suas interações sociais, mudou como o planeta.
A indústria estabeleceu o emprego em novas bases e contribuiu para a instalação de uma nova cidadania e família, conforme ainda a mantemos em nossa imagem mental (se bem que essa quase só exista ainda em nossa mente). Foi também em função da indústria que ocorreu a universalização do ensino, que anteriormente era privilégio da elite econômica.
Para tratar de todas as importantes alterações ocorridas seria necessário escrever páginas e páginas, mas nos concentraremos no que é mais pertinente ao nosso tema: as principais influências na família.
A família brasileira que se reafirmou no século XX foi desenhada pela alfabetização masculina e a formalização e garantias criadas na relação de emprego. A indústria demandava mão de obra, inicialmente força física e logo em seguida, com algum atributo intelectual. Esse foi o impulso e o ensino se universalizou, para os homens inicialmente. Esse quadro confirmava o natural papel do "macho provedor" e a mulher, dona-de-casa.
A mulher não só não freqüentava a escola (pra que aprender a ler?) como não podia votar (o que uma mulher entende de política?). Seu papel era então de manutenção da estrutura de suporte ao homem e de mãe.
Esse desenho de família permitia que o homem se orgulhasse do seu papel de provedor e de suas conquistas, e que a mulher tivesse oportunidade de vivenciar uma relação integral e eventualmente intensa na formação dos filhos.
Mesmo que politicamente incorreto, esse desenho foi benéfico ao desenvolvimento social por propiciar condições bem razoáveis para a formação dos filhos. As crianças recebiam atenção integral com afeto e internalizavam a estrutura social e valores da micro-sociedade (família - celula-mater), expandido-a posteriormente, para o conjunto social.
Enquanto esse quadro se consolidava na primeira metade do século, o movimento social já indicava mudanças. O voto feminino entrou na Constituição de 1934 e isso abriu as portas (e as mentes) para a alfabetização feminina. Duas décadas depois surgiu a pílula anticoncepcional e mais duas décadas (1975) foi aprovada a lei do divórcio no Congresso (Lei em 1977).
Podemos imaginar uma mulher que, se não é analfabeta, recebeu apenas o mínimo para saber ler, que não dispõe de meios eficazes para evitar a gravidez e, como trabalho, pode encontrar apenas trabalhos domésticos nas famílias de outros! O casamento, nesse caso, deve ser o único e onipresente desejo.
A sociedade como a conhecemos hoje foi, então, desenhada na segunda metade do século: os anti-conceptivos são praticamente distribuídos a adolescentes; o ensino é enfatizado e as mulheres ocupam mesmo a maioria dos bancos escolares (se bem que em algumas regiões, os pais ainda fazem maiores esforços para a educação dos filhos homens); o mercado de trabalho (mesmo com algum preconceito em alguns setores), busca a mulher. No casamento, a separação pela iniciativa feminina é comum e mesmo incentivada em casos específicos. O Movimento de Libertação Feminina (Betty Friedam) foi um sucesso e virou tema de piada tal a distancia conceitual que temos hoje, em relação ao padrão existente antes dele.
Essa saudável equiparação feminina se confunde, em alguns momentos, com uma suposta igualdade entre os sexos; homens e mulheres têm direitos equivalentes, dividem o poder na família, porém têm características muito diferentes.
O desenvolvimento da competência feminina para o mercado de trabalho (demandado pela indústria) gerou maior oferta de mão de obra com a conseqüente queda no seu valor. Dessa forma o homem perdeu o status de provedor. O menor empenho e disponibilidade para a maternidade foram reduzindo algumas das competências (ditas femininas) para esse campo.
Entramos então no século XXI com a imagem da família do século passado, porém com um desenho social completamente diferente, o que afeta significativamente a formação dos filhos. O resultado está no quadro atual social o que por sua vez influencia novas mudanças.
Todas as pessoas que querem e se dispõem a ter filhos, querem o melhor para eles, mas como continuam com a imagem de família internalizada do século passado, não conseguem responder adequadamente às novas exigências, pois precisam atender ao que demanda a sociedade atual. O resultado não só é a insatisfação pessoal, como também uma formação dos filhos deficiente.
Mesmo nos cuidados básicos ao bebê, a mãe da parturiente já não a acompanha na gestação e no antigo período "de dieta", já que os núcleos familiares atuais se resumem ao casal e filhos.
A preparação e cuidados se resumem aos exames do "pré-natal" e eventualmente um curso, na maternidade, quanto aos cuidados básicos no banho, amamentação e assemelhados.
Não nos demos conta ainda que o desenvolvimento emocional e cognitivo começou na gestação e que, no útero, começa o sucesso ou não, a "inteligência" ou não, o equilíbrio emocional ou o desequilíbrio, a carência e indiferença afetiva e que parte importante desse desenvolvimento ocorre na primeira infância. Sobre esse alicerce é que se "forma" o adulto.