Disponibilidade Emocional
Written by Carlos Messa   

Conto publicado com "O Patife" em 2000, abordando a disponibilidade emocional para o encontro consistente com o "outro".

Tia Helena

Não tinha uma periodicidade definida. Acontecia assim, de tempos em tempos, ordenada menos pelo tempo decorrido e mais pelo sentimento. De repente estava agendado: Domingo iremos “na” Tia Helena.

Não sabíamos se eles estariam lá (eles todos, a tia, o tio, os primos, oito ao todo). Não telefonavamos para combinar porque não tínhamos telefone (nós e eles).

Poderia acontecer de eles não estarem mas seria uma grande coincidência. Onde iriam?  Poderiam vir para cá, em casa, isso sim. Nunca aconteceu.

 

De qualquer forma levantávamos cedo. Eram, no mínimo dois ônibus, quarenta minutos cada um.

Queríamos chegar cedo para aproveitar bem o dia e também para que, se eles tivessem planos de sair, os pegaríamos a tempo.

Simples.

Eu iria na “televisão”. Era assim que chamávamos o primeiro assento junto ao para-brisa do “papafila”. O “papafila”, se você não se lembra, era um ônibus enorme puxado por um cavalo-mecânico. Era uma daquelas promessas de campanha de um político que conhece as necessidades do eleitorado e consubstancia a solução em um protótipo. Ganhou e colocou nas ruas. Não resolveu nada, evidentemente, mas cumpriu a promessa.

A “televisão” permitia uma visão ampla dada a distancia do ônibus ao cavalo-mecânico, principalmente nas curvas.

A chegada era um acontecimento; beijos e abraços. Era realmente um encontro para os adultos e muitas brincadeiras para as crianças.

A conversa entre os adultos acontecia durante a preparação do almoço. Algumas das crianças saiam para comprar algum ingrediente porque o encontro era inesperado.

Ninguém temia o inesperado. É, parece que o inesperado se tornou algo necessariamente ruim. Isso foi se consolidando ao longo do tempo na medida em que as pessoas passaram a pautar toda a sua vida sob o preestabelecido em um plano. Todos temem o que é ruim e desejam o que é bom. Os planos naturalmente tem como objetivo auxiliarem as pessoas a alcançar o que é bom para elas; então, por extensão, se algo as tirou de seus planos, esse algo é ruim.

Podia acontecer da Tia Helena estar com enxaqueca? Claro que sim. Se isso acontecesse ela diria: - “Ai, hoje acordei com uma enxaqueca daquelas!” Alguém perguntaria: - “E você tomou alguma coisa?”

-          “Ih, já tentei de tudo...”

E a conversa prosseguiria porque, naqueles tempos, a vida continuava com ou sem enxaqueca. A visita, o encontro era mais importante ou, ao menos, era inesperado tanto quanto a enxaqueca. Por que priorizá-la?

Com o passar dos anos a necessidade de construir planos e seguí-los se estabeleceu e o telefone passou a ser imprescindível. Ligar e marcar. Sem agendar “no way” já que uma visita inesperada é como tropeçar na entrada da sala de entrevista de emprego, na frente do possível futuro chefe. Abrimos a porta e sequer reconhecemos nosso amigo. Se não fazemos uma careta de dor, ao menos nosso rosto estampa um espanto. Passado o espanto não vem aquele abraço e a alegria. Pode vir um abraço sim. Alegria não porque passa pela nossa cabeça nossa agenda e o que deveria ser feito.

Não acontece um encontro.

Ligar e marcar.

Com a Tia Helena aconteceu isso. A cada tempo minha mãe ligava. Conversavam, contavam como estavam as coisas, riam de um ou outro ocorrido e... desligavam. Era o encontro. Para que ir até lá, aquele desgaste. Tão fácil com o telefone.

Nossos encontros se reduziram. Não estou dizendo que ficaram menos freqüentes; estou dizendo que ficaram menores, menos intensos. Se reduziram à dimensão do telefone.

O que me incomoda realmente é a dimensão do encontro.

Um amigo me explicou de forma bem simples: -“Quando você vai fazer uma visita, sem combinar, você está desrespeitando o visitado porque você se planejou para essa visita. Você está preparado. Só para ele é que restou o inesperado.

É lógico e eu entendo. Por outro lado, um encontro não é duas pessoas que se aproximam, se cumprimentam, conversam. Um encontro acontece quando duas pessoas se tocam não apenas fisicamente mas emocionalmente.

Se ligo para um amigo e combino para um encontro, já conversei com ele. De forma limitada, sem ver seu rosto, sem sentir seu cheiro, mas conversei. De certa forma esvaziei um pouco o encontro.

Mais do que um encontro de amigos, um encontro que inclua também sexo pode e deve ser muito mais intenso. É uma soma de encontros entre duas pessoas, contato físico, afetivo e contato íntimo.

Depois que se estabeleceu que é “respeito” ao outro agendar um encontro, por contaminação também o sexo precisa ser agendado. É preciso combinar, saber se o outro está disponível, interessado, preparado. Depois disso é esperar a hora marcada e...

Por isso o sexo banal caiu no cesto dos fetiches. Ele atrai porque traz o prazer do inesperado. Ele é carente de um encontro mais intenso e profundo mas tem o que os outros perderam: o ser aceito, a sensação de ter agradado, de ser capaz de trazer alegria. Isso faz parte do encontro: eu sou querido e, ao mesmo tempo, o outro é um “porto seguro” para mim.

Que encontro pode haver se o outro não me “recebe” quando o procuro?