Mais
Contato
| A Verdade |
|
No dia seguinte, tinha me esquecido do ocorrido e quando enfrentava o congestionamento naquele local, ele abre a porta direita e entra no carro. Olhando nos meus olhos ele disse: - “Você perguntou e agora vai ficar aí quietinho, que eu vou te responder.” Eu estava apavorado. Como é que eu não travei essa porta? Por que não me preparei para passar por aqui, depois do que fiz ontem? O jeito agressivo e ameaçador dele me fazia pensar também que certamente eu seria agredido. Ele disse: - “A verdade não pode ser dita porque ninguém quer ouvir. Me dá um cigarro. Sei que você fuma porque basta entrar aqui para sentir o cheiro, do mesmo jeito que você sentiu cheiro de bosta quando eu entrei” Dei o cigarro enquanto pensava que ele estava certo. O fedor, ardido, era quase insuportável. Sujo, molambento, os cabelos longos grudados como se usasse graxa. A mão que pegou o cigarro... indescritível. Falava: - “Você tem medo de mim mas não pode admitir isso. Eu não sou gente, para você e você se acha gente, portanto, superior. Você não pode aceitar a verdade: que passa sua vida num trabalho que não te diz respeito. Você não pode admitir que preferia fazer outra coisa, não sei o quê, pode ser até mesmo, ficar andando entre os carros como eu. Se você admitir que tem outro desejo que não levantar cedo, ir para o escritório, fazer coisas que precisam ser feitas e outras que não precisam, pegar o carro, ir para casa e dormir, se você admitir sua vida desmorona. Todo o mundo está esperando que você faça isso, todo o dia a mesma coisa. Esperam mais, também, esperam que você ganhe mais, compre mais coisas. Você também espera mais: mudar tudo isso um dia. Você não pode admitir, também, que esse dia nunca virá. Você não pode admitir que vai envelhecer e morrer sem ter feito nada do que você queria. Você não pode admitir que a sua vida é um fracasso. Um fracasso completo. Seu prazer é falso, é uma mentira. Você não pode admitir que acha melhor estar trabalhando ou inventando o que fazer porque você não pode parar e gerar uma oportunidade de pensar, quem sabe, nessas coisas. É como a sacada do seu prédio, que você não chega perto. Você sabe que não vai cair. Seu medo é de pular. Seu medo é pular, tanta é sua vontade de acabar com isso que você nem sabe o que é, mas é a vida que você construiu. A verdade é que se você conseguisse admitir algumas coisas, você não iria mais querer pular. Você trabalha e eu não. Você compra coisas boas para comer mas tem menos prazer com elas que eu comendo alguma coisa que achei no lixo. Você paga escola para os filhos, assistência médica, seguro de vida, da casa, do carro. Você paga tudo e faz o mundo funcionar, mas você não sabe pra que, porque você queria estar em outro lugar, de um outro jeito só que isso você não pode admitir. Você precisa pensar que você está certo, que você é bem sucedido e que eu sou louco. Obrigado pelo cigarro.” Saiu do carro como tinha entrado e, sem olhar para trás foi para o carro da frente e vociferou: - “A verdade não pode ser dita.” Eu estava meio aparvalhado. Como estava sentado, tudo bem; se estivesse em pé, talvez precisasse sentar. Travei as portas do carro e fui, através daquele congestionamento, para casa. Precisei de um bom banho nesse dia. Um incômodo me acompanhava: eu não reagi, não falei nada. Era como se eu tivesse sido assaltado; pior: violentado. Como ele havia dito no começo, eu tinha ficado quietinho ouvindo. Ele havia vencido.
Na verdade não havia outro caminho para mim. Não passar pelo “triângulo das bermudas” exigiria uma volta de mais uns 3 quilômetros. Eu não podia passar por ali e correr o risco de encontrá-lo. A saída era pegar uma ruazinha que descia lateralmente e, depois, pegar outra viela paralela, esburacada, e tentar sair pouco mais a frente, esperando que o maluco estivesse para trás. Deu certo por vários dias. Dias que não dormi direito nem trabalhei como antes. Dias em que estive com o humor lá embaixo. Fugindo! Nessa de dormir mal, sonhar ou ter pesadelos, um belo dia acordei bem e pensando: - “Que besteira, esse louco não pode me incomodar.” Nesse dia fui pelo caminho normal, peguei o tradicional engarrafamento e fiquei, tranqüilo, esperando o maluco passar. Pelo espelho retrovisor percebi sua aproximação e notei que ele me reconheceu. Mas veio em frente sem alterar sua rotina. Na minha janela gritou: - “A verdade não pode ser dita”. Quando foi em frente gritei: - “Mentiroso”. Novamente ele recebeu minha fala como um golpe mas continuou seu trabalho. Senti-me apaziguado. Fui feliz para casa. Eu estava de novo no comando! No dia seguinte, vinha tranqüilo pelo caminho costumeiro porém verifiquei se as portas do carro estavam travadas e tomei o cuidado de fechar os vidros. Nesse dia, quando ele se aproximou do meu carro, fez um sinal como que pedindo para eu abaixar o vidro, o que fiz porém abrindo um pequena fresta, o que deu para ouvi-lo dizer: - Por quê? Acho que minha reação foi igual à dele quando lhe fiz essa mesma pergunta. E agora? Abri um pouco mais a fresta e disse: - “Amanhã eu te explico”. No outro dia fui preparado. Ao aproximar-me do ponto onde vivia o louco, entrei na rua paralela, minha conhecida nos dias de fuga, estacionei o carro e fui, a pé, ao seu encontro. Ele me viu e se aproximou. Fui logo dizendo: - “Desculpe, eu não queria te ofender, mentiroso foi só um modo de rebater o que você disse.” Ele retrucou: - “Não estou ofendido, eu só quero saber porque da sua resposta.”
Fomos ao boteco mais próximo e, enquanto tomava a cerveja tentando manter uma boa distancia para não sentir seu cheiro, expliquei: - “Se a verdade não pode ser dita, então o que você diz não é a verdade, é uma mentira e, se o que você diz é uma mentira, então – a verdade pode ser dita -, o que faz de você um mentiroso”. Ele tomou a cerveja mais rápido do que eu esperava e, antes que eu pedisse outra, disse: - “Posso te responder amanhã?” Eu disse que sim e ele se foi. Não o vi gritando seu “slogan” quando continuei meu caminho. No outro dia ele estava me esperando. Novamente estacionei e fomos para o bar. Uma grande coisa aconteceu: ele tinha tomado banho, estava com outras roupas, velhas, que não eram do seu tamanho, mas me senti lisonjeado: ele tinha feito algo diferente na sua vida para, pelo menos, não me incomodar. Disse: - “Olha, eu não sei o que é mas acho que tem alguma coisa errada no que você disse.” Não continuei o assunto, perguntei o seu nome.
Não era seu nome e sim um apelido mas para ele isso não fazia nenhuma diferença.
Pensei comigo: – ele vive voando – mas uma idéia me fez dizer quase sem pensar:
Eu não sabia explicar porque eu estava fazendo aquilo. O fato é que me programei para levá-lo no sábado ao aeroclube para fazer um vôo sobre a cidade. Fui buscá-lo conforme combinado e ele tinha melhorado um pouco mais. Cortou e penteou os cabelos. Foi quieto e mesmo no vôo não fez nenhuma estripulia. Na verdade, desde que tinha começado a falar com ele, aquela idéia de que ele era maluco foi desaparecendo. Agradeceu e não queria que eu o levasse de volta. Despedia–se como se nunca mais me fosse ver. Parecia um pouco envergonhado. Antes que se fosse convidei-o para uma cerveja e o fiz tomar várias enquanto conversava com ele e soube que ele não tinha casa (previsível), não sabia da família (e não queria saber), tinha iniciado o segundo grau (surpreendente) e, aquilo que eu já sabia: voar era seu sonho. Disse seu nome: Miltinho. Perguntei porque ele não se tornava piloto e ele riu, meio de lado, como que dizendo – que piada. Continuei falando sério; disse que lhe daria um emprego e faria a inscrição no curso de piloto privado se ele se comprometesse a estudar e tirar seu “brevet”. Ele estava um pouco de fogo e parece que só por isso pode acreditar nessa possibilidade. Eu já tinha tudo planejado. Precisaria talvez dar a ele duas mudas de roupa e seria muito fácil arrumar um trabalho de “tirador de cópias”, no escritório. Com seu salário ele não conseguiria pagar o curso de piloto e as aulas do aeroclube mas decidi que uma parte eu pagaria. Dei meu cartão e fiz com que se comprometesse a me procurar na segunda-feira para começarmos a realização desse plano. Ele foi. Isso aconteceu há pouco mais de vinte anos. Ontem eu lhe perguntei: - “A verdade não pode ser dita?” Ele me olhou por algum tempo, considerando a amizade que nos unia e disse: - “A minha sim. Eu sou feliz como talvez você nunca tenha sido. Você foi o pai que pouca gente consegue ter e deu-me o que eu precisava. Eu trabalho para ganhar a vida como precisa ser feito, mas quando estou trabalhando estou também vivendo, apreciando, presente em cada minuto. Eu quero estar ali. Você parece que não teve a mesma sorte”. Só aí eu confessei que tudo o que ele me havia dito em nossa primeira conversa, era verdade. A minha verdade, agora, já podia ser dita. Eu não podia admitir a minha vida: eu pularia da sacada do apartamento. Recusei-me no entanto a enfrentar isso por muito tempo mais. O que fiz por ele, não é o que faria um pai. Eu só o peguei com um sofisma e prendi-o através do seu sonho como um anzol que o fisgou e o levou a ser um copiador. Assisti com prazer seu desespero dentro daquela salinha quente, aquela luz e o barulho repetitivo daquela máquina fazendo cópias. Acreditei que ele não sairia de lá e, se saísse, não iria muito longe; talvez de volta ao “triângulo”. Queria vê-lo como eu, correndo atrás do dinheiro e perdendo o sentido da vida. Queria que um dia pudesse dizer para ele tudo o que ouvi da sua boca. Se possível usando as mesmas palavras. Depois descobri que ele não corria atrás do dinheiro. Agüentava aquele trabalho idiota para realizar um sonho viável. Voou bem alto. Realizou. Não foi difícil ver. Ele não precisava dizer que era feliz. Era perceptível. Depois fui me tornando realmente seu amigo, na medida que enfrentei aquelas verdades que ele me tinha dito. Não mudei de vida, não muito. Quando dei por mim, já era velho demais para isso. Vê-lo realizar seu sonho, ver que por linhas tortas contribuí para isso tornou meu dia-a-dia mais palatável. Sou o avô do filho do Milton, que é como o chamo. De alguma forma ele salvou minha vida. Com algumas das coisas que confessei ele se surpreendeu. No final esboçou um sorriso como se dizendo ao velho pai: Se você cometeu algum erro, tudo bem; eu também não fui bonzinho o tempo todo. Rimos. Quando se é feliz é mais difícil ter mágoa ou outros sentimentos ruins. |