(Primeiro capítulo do livro Des-Envolver - esgotado)
São dezenas de filmes explorando a mesma situação: um povo primitivo se torna obstáculo para a realização de um desejo de um grupo "civilizado"; o líder do grupo ameaça os primitivos com a transformação do dia em noite se não atenderem o seu desejo até a hora "X". Na hora marcada um eclipse acontece e os primitivos, amedrontados com o poder do homem branco, cedem. No Brasil, Bartolomeu Bueno da Silva recebeu dos índios a alcunha de Anhanguera (diabo velho), pela realização dessa mesma façanha. Bandeirante, em 1682 rumou para Goiás e estava lutando contra a resistência dos índios em informar onde ficavam as jazidas de ouro. Bartolomeu despejou aguardente em uma cuia e ateou fogo, mostrando aos índios que era capaz de atear fogo aos rios se eles não mostrassem as jazidas. Foi atendido.
O efeito Anhanguera acontece guando uma pessoa atribui forças/poderes espetaculares em determinada ocorrência pelo desconhecimento de detalhes de sua realização. Encobrir o Sol realmente é uma tarefa que exige poderes extraordinários porém conhecer a data em que ocorrerá um eclipse é algo que está ao alcance de qualquer pessoa. O efeito Anhanguera, no entanto, acontece porque entendemos que o Mundo é apenas o que conhecemos dele. Tudo o que não conhecemos arquivamos como impossível de ser realizado ou pertencente ao mundo mágico.
Enquanto o Homem pisava na Lua pela primeira vez, eu falava ca importância do fato quando minha avó me interrompeu: - "Imagina, filho". Era uma forma do efeito Anhanguera. Ela acreditava que seria preciso poderes extraordinários para ir até a Lua e que o Homem não dispunha desses poderes. Ela assistiu pela televisão a chegada à Lua como um filme qualquer de ficção. Essas histórias tem um fundo cômico mas elas acontecem no dia-a-dia e é muito difícil evitarmos o efeito Anhanguera. De alguma forma resistimos e não consideramos a possibilidade de realização de algo que nos aparenta ser espetacular por desconhecermos os detalhes dessa realização. Da história poderíamos tirar milhares de exemplos.
Alguns são clássicos como as "verdades" de que a Terra é o centro do Universo (afinal nós vemos o Sol girar em torno da Terra e, se ela girasse, todos nós cairíamos) e de que há um abismo no fim da Terra (se ela fosse redonda os oceanos derramariam). O efeito Anhanguera pode ser muito forte, principal mente quando apoiado na opinião coletiva. Em 1982 o Dr. J.A.C. Muller propôs a um grupo de profissionais do qual eu fazia parte, uma pesquisa sobre uma terapia ingênua. Nessa época estava a seus cuidados uma paciente que não aceitava a terapia tradicional. A alternativa foi propor uma terapia de origem cigana. Uma máscara de argila foi confeccionada e entregue à paciente para que a olhasse uma vez por dia, durante alguns dias e, depois, a depositasse sob a chuva. O pressuposto cigano é que o "mal" se desfaria com a argila sob a chuva. O experimento foi realizado acompanhado de várias formas de psicodiagnóstico e depois relatado no livro que chamamos "A Máscara da Serenidade", publicado em 1984 . Os resultados mostraram a modificação e eliminação dos sintomas inclusive com efeitos exonerativos observados pelo acompanhamento homeopático, como se a paciente tivesse sido medicada. Mágica? Poderes paranormais?
Evitando o efeito Anhanguera podemos entender que, nesse processo, muito mais importante que a argila (a máscara), a objetalização da doença pode ser o veículo da cura, apesar de algumas pessoas ainda interpretarem o fenômeno como mágico. Sob esse efeito alguém pode tentar usar a máscara para a cura de males para os quais ela não se aplica ou para pessoas que não a tenham como solução possível dentro de seu repertório. Não raro vemos a hipnose ser percebida com essa mesma distorção. Se a hipnose é um instrumento importante em determinados casos, é necessário também entender que ela, por si, não tem efeito algum. Seu resultado depende muito da forma como é utilizada.
Com seu poderio econômico os norte-americanos são muito eficientes em pesquisa. Acompanhando pessoas de sucesso, pesquisadores descobriram que elas obtinham melhores resultados dos seus relacionamentos e que isso acontecia porque acreditavam/esperavam que assim acontecesse.
Novamente podemos perguntar: Poder? Magia? Pavlov nos mostra que não. O princípio é o mesmo; ele há muito tempo o descreveu no condicionamento em cães. A partir dos resultados dessa pesquisa foi elaborado um programa para treinamento de executivos cuja essência era "Espere Excelência", isto é, espere o melhor das pessoas com quem você se relaciona. Houve resultados positivos; alguns dos executivos treinados passaram a obter melhores resultados em seu trabalho mas outros não. Era o efeito Anhanguera.
Os executivos que entenderam o processo se saíram muito bem ao utilizá-lo. Os executivos que não entenderam os fundamentos do processo mas acreditaram e, automaticamente, repetiram o processo, também tiveram bons resultados. Os executivos que, para si mesmos, questionaram a possibilidade de obter bons resultados com o procedimento, não obtiveram bons resultados. Estes últimos achavam que o processo era muito simples para dar resultados; era como mágica e eles não acreditavam em mágica.
Alguns resultados aparentemente extraordinários nas diversas áreas da vida estão descritos à frente. Todos eles são resultados possíveis, tirados da realidade, alguns há muitos anos mas pertencem ainda, para algumas pessoas, ao campo mágico e, por isso, essas pessoas os negam, não se beneficiam deles. O objetivo deste trabalho é permitir que a pessoa que se interessa, por exemplo, pela saúde, abra a possibilidade para recursos que eventualmente ela tenha negado até agora. É mostrar alguns dos motivos que fazem uma pessoa estar permanentemente adoentada, outra, freqüentemente infeliz, outra, apática. Queremos, principalmente, apresentar possibilidades, definir que esses não são estados imutáveis. Ao contrário, a vida só é um fardo para nos indicar que estamos no caminho errado. A vida não é desta ou daquela forma. Nossas escolhas e decisões nos levam para esta ou aquela situação, mesmo que isso seja difícil de ser percebido.
Quando nascemos temos um potencial definido de crescimento em função da carga genética recebida dos pais. Nosso potencial pode ser, por exemplo, atingirmos quando adultos uma estatura entre 1,60 e 1,75 metros. Podemos atingir 1,67 metros se deixarmos a natureza realizar seu trabalho sem interferirmos; podemos não passar de 1,61 metros se brigarmos atabalhoadamente com nossa natureza; podemos também realizar todo o nosso potencial de crescimento se agirmos conscientemente nessa direção. Essa é uma Realização Humana. Ela depende da decisão pessoal e de agir nessa direção. Abrir as possibilidades de escolha porque escolha e decisão vão construindo o destino é o objetivo deste trabalho.