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| Integração Razão-Emoção (J. Lennon) |
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No Desenvolvimento Humano podemos identificar com facilidade o desenvolvimento normal e esperado (que pode ser adequado ou distorcido) e um desenvolvimento planejado/excepcional que visa ampliar a integração dos conteúdos emocionais (normalmente os inconscientes) à consciência. Prefiro entender que algumas correntes da psicologia nomeiam o processo de “crescimento” que vai além do “natural” e comum: em Jung encontramos a Individuação, assim como em Szondi a Humanização (dos instintos). (Veja o olhar do menino da foto; tristeza? - abandono?). O ser-humano nasce como animal, suportado pelo instinto, e transmuta as percepções e sensações em sentimentos, nos primeiros anos de vida, através das vivências proporcionadas pelos pais. Depois, por duas décadas transformar-se-á, transmutando suas emoções – impulsos em parte inconscientes – em pensamentos conscientes (e atitudes). A pessoa que conhece (e reconhece) seus impulsos, suas emoções e seus motivadores, está mais inteira, por agir de forma que tanto a razão quanto a emoção, integradas, promovam o comportamento “íntegro”. Cada pessoa pára esse desenvolvimento em algum momento e os termosIndividuação e Humanização indicam os processos em que há um avanço mais profundo nessa integração, além do ponto onde haveria a parada ou redução “natural” desse desenvolvimento. Esse “crescimento” é fácil de ser observado comparando as reações de uma criança de dois anos com uma de cinco, oito e assim por diante. Nos adultos isso não é facilmente identificado porque nos habituamos a entender que a pessoa “é” deste ou daquele jeito. Não “é”; o crescimento interior pode não parar e a pessoa pode alcançar um aprimoramento – um “crescimento” - significativo. Como exemplo vou citar alguns pontos da história de John Lennon, um dos Beatles, aproveitando o fato de ser uma figura pública e com dados conhecidos. Lennon nasceu em 1940 e logo depois seu pai (da marinha mercante) abandonou a família. A mãe, Julia, pouco depois engravidou de um soldado galês e acabou passando à sua irmã Mimi o guarda de John. Ele era tido como rebelde, apresentou vários problemas na escola e casou-se aos 22 anos quando Cynthia, sua namorada, engravidou. “Eu poderia lidar com suas explosões, seus ciúmes, sua possessividade, mas não com a violência”, disse Cynthia. Não foi nenhum exemplo de marido além de não ter constituído um vínculo com seu filho Julian e agredido fisicamente Cynthia (a revista Veja comentou esse fato dizendo que Lennon não “era” tão amoroso e passivista quanto sua imagem pública, negando dessa forma seu processo de “humanização”). Separou-se quando Julian tinha 7 anos. Uniu-se à Yoko Ono da qual separou-se 3 anos depois, unindo-se à May Pang por dois anos, até reconciliar com Yoko. Quando nasce Sean, abandona a carreira para cuidar do filho. Por cinco anos esteve ausente da vida profissional/artística. Podemos supor que o fato de ter sido abandonado gerou comportamentos identificáveis na história conhecida de John Lennon:
Cynthia conta como foi esbofeteada pelo namorado, depois de ser vista por ele conversando com um colega de escola: - “Ele chegou, me esbofeteou e saiu sem dizer uma palavra”. Esse era o John adulto, Beatle casado e pai, que pegamos já no término do seu desenvolvimento emocional “natural”, e vamos ver o “crescimento” adicional que ele conseguiu. Para evidenciar Lennon no grupo, vamos identificar rapidamente os componentes da Banda: Lennon exerceu a liderança no início dos Beatles por inúmeros motivos, mas vamos nos limitar a alguns pontos que contribuíram para que ele fosse um líder diante de Paul McCartney, seu parceiro nas canções do grupo:
Lennon era o responsável pela agressividade, irreverência do grupo e, nas canções, pelo ritmo e “força”. Paul era o responsável pela melodia e suavidade. Assinando separadamente as próprias canções, George Harrison era “meditativo” e melancólico. Ringo – bom, Ringo era o baterista. Nos primeiros discos da banda as composições eram feitas em grupo e as assinadas por Lennon e McCartney possivelmente foram escritas com a contribuição mútua porém, aos poucos foi possível identificar a “marca” de cada um deles e a redução da influência do outro. Nas carreiras “solo” depois do fim do quarteto salientou-se a carência da combatividade de Lennon nas canções de Paul e a carência do melodioso Paul nas canções de Lennon. Pela “liderança”, John era o vocalista preferencial nos primeiros discos dos Beatles, lugar que Paul veio a ocupar posteriormente (merecidamente). Já nos primeiros discos dos Beatles (1963 >) podemos identificar versos que traduzem a dificuldade relacional (vínculo) de Lennon, mesmo à partir da canção de Alexander:
Em With The Beatles (1963) são várias apresentando o mesmo perfil:
1964 – For Sale “I’m a loser” - I lost someone who’s near to me 1965 – Ruber Soul “Nowhere man” “Run for your life” - (“assumindo” o ciúme e descrevendo parte da reação que teve com Cynthia) 1967 – Sgt Peppers “Getting Better” - I used to get mad at my school (* ver nota) Magical M. Tour “All you need is love” 1968 – Album Branco “Julia” - When I cannot sing my heart, I can only speak my mind “ Yer Blues” - My mother was of the sky, my father was of the earth 1969 – Abbey Road “I want you” (she’s so heavy) 1970 – Let it be “Dig a pony” e “Dig it” Nos primeiros álbuns as letras de John ou das canções escolhidas por ele são apresentadas como ficção, algo externo e/ou comum a todos. Depois de 1967 (já identificada a autoria) elas se parecem mais com confissões ou auto-biografia.
O trabalho integrador pode ter sido acelerado pela viagem à Índia (Harrison - 1966) e pelos trabalhos psicoterápicos, sendo que um deles (terapia do Grito Primal) gerou “Mother”, em 1970. (Mother, you had me, but I never had you Mama don’t go (veja no youtube, cantando pessimamente) Lennon estava mudando e isso é visível (67 a 70). Conheceu Yoko em 1966 e aparentemente não teve nenhum entusiasmo por ela porém ela sim passou a assediá-lo até que em 1969 começaram um affair. Talvez por influência dela, em 1969 Lennon já estava engajado na causa pacifista, fazendo campanhas apoiadas em seu prestígio e bancando outdoors em diversos países do mundo, com a frase: “War is over” (if you want it). Podemos nos perguntar se essa luta intensa contra a guerra não retratava efetivamente a luta contra sua guerra interior. Com Yoko já fazia alguns discos “solo” experimentais, prenúncio do “fim” dos Beatles.
Fora dos Beatles, em 1971 com o disco “Imagine”, ficam mais explícitas as mudanças. Suas canções já possuiam mais melodia e boa parte delas eram delicadas - “doces” e mesmo construtivas! Em uma delas (“Jealous Guy”) ele “repagina” sua postura típica anterior explicitada em “Run for your life” (Catch you with another man – that’s the end):
I was dreaming of the past Mudanças significativas que, para olhares superficiais poderiam indicar uma contradição ou mesmo marketing. Seu engajamento político-social é a marca do seu disco de 1972 e nele está presente novamente o ritmo mas a agressividade já está dirigida – já se destina a algum alvo - “Sometimes In New York City” (Woman is the Nigger of The World / Sisters, Oh!Sisters / Attica State / Born in a Prison / New York City / Sunday, Blood Sunday / The Luck of the Irish). Hoje vemos que esse engajamento foi suplantado depois pelo pacifismo, resposta externa à sua busca de paz interior (e “amor”), porém as mudanças internas ainda não haviam conseguido alterar totalmente sua responsividade e, no limite, as respostas viscerais ainda aconteciam, o que provavelmente provocou seu afastamento de Yoko entre 1972 e 1975. Nesse período sua produção artística é “passível de críticas”, para dizer o mínimo. Yoko já tinha feito alguns abortos, não queria filhos e só assumiu uma gravidez para não por sua própria vida em risco. Teve Kyoko em 1963, que ficou sob a guarda do seu (ex) marido. Ao retomar seu relacionamento com Lennon, em 1975, engravida novamente e Lennon resolve assumir o papel de “mãe” de Sean. É nessa atitude que podemos ver o “novo” John Lennon assumindo vínculos que eram impossíveis de ser assumidos anteriormente. Por cinco anos viveu para Sean. Quando Sean faz cinco anos Lennon retoma a vida artística e grava (com Yoko) o álbum “Double Fantasy”. É assassinado em Dezembro de 1980. “Double Fantasy” retrata então a última face conhecida de Lennon onde se ressaltam a paz, construtividade, amorosidade e, musicalmente, o que ele é capaz de produzir quanto à melodia. Muitos dos fãs de Lennon não o reconhecem nessa fase (não aceitam a mudança - um Lennon que não seja agressivo) e outros a classificam artisticamente como pobre ou sofrível. Sob a ótica daindividuação e humanização, foi seu auge pois partimos de um Lennon adulto atormentado e chegamos à “sua” maturidade, como podemos ver nas canções dessa fase nas quais ressalto em itálico algumas palavras, e com um clique você pode ver e ouvir: Our life together is so precious together Em 1979 Lennon compôs “Real Love” que não fez parte de “Double Fantasy” e os “Beatles” restantes recuperaram em 1995, incluindo na gravação a voz de John. A letra dessa canção parece retratar o processo de crescimento e “libertação” de John Lennon. Caso você sinta a tentação de “traduzir o “You” da letra por “Yoko”, esqueça; tente ler apenas como diz o verso: “was waiting for L O V E”: Real Love ll my little battling schemes
E se ele não tivesse passado por esse processo todo e não tivesse se tornado mais suave, mais “humanizado”, poderia ainda estar vivo? Conjecturas. A história de John Lennon mostra como nos tornamos reprodutores de características que são construídas em nossa infância. Lennon ao casar-se com Cynthia buscou inconscientemente alguém que tinha uma história familiar que não incluía o abandono ou rejeição, garantindo que seus filhos tivessem uma história diferente da sua. Não conseguiu, por si mesmo "bancar" essa postura e passou a Julian o sentimento de abandono ao separar-se de Cynthia.
Escolheu, depois, Yoko, que trazia também o sentimento de abandono e, vendo-se nesse"espelho", aprofundou seu processo de "crescimento" e decidiu ser a "mãe" de Sean, evitando passar a ele o "seu" sentimento de abandono, já que Sean receberia o "sentimento de abandono" de Yoko. (*) Correção feita por Luiz (leyline) expert em Beatles: Excelente análise sobre o homem e não o gênio. “I’m Down (1965) e “Helter Skelter” (1968), esta última, considerada por muitos críticos como oprimeiro heavy metal da história. tantas outras. Ele não era, nem é um virtuose, mas deixou grande contribuição para mudar a bateria no rock’n'roll. No mais, parabéns pelo belo trabalho!
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O processo de Individuação de John Lennon - um exemplo das formas de reproduzir o abandono e rejeição.
O fim dos Beatles pode representar também a linha de conduta típica que Lennon