Direção Carl Bessai
2003 – Canadá – www.emilethemovie.com
Com: Ian McKellen, Deborah Kara Unger, Theo Krane, Tygh Runyan, Chris Willian Martin, Ian Tracey.
Se um filme pudesse ser “de cabeceira”, esta seria a minha escolha.
Ele não ganhou prêmios nem teve um grande público mas esteve na nossa Mostra Internacional de Cinema.
Se for assistido de forma superficial, certamente gerará comentários como: lento; cansativo e a trilha sonora pode parecer depressiva para fãs de Missão Impossível. Essas impressões aparentarão ser ainda mais corretas ao atentarmos para o fato de Carl Bessai ser o diretor, mas também roteirista, produtor e, finalmente, dele também é a fotografia. O motivo disso seria a falta de verba, a onipotência do produtor ou o reflexo da legítima obra autoral? Prefiro escolher a terceira alternativa.
A Força das Palavras é um grande filme; é um poema cinematográfico que discorre sobre vidas dirigidas para desertos emocionais e trata da força das palavras, da força da ausência de palavras e atitudes e/ou do despertar da consciência da possibilidade “criar” a vida.
Os resumos desse filme encontrados na Internet se contradizem ou, ao menos, enfatizam diferentes aspectos, o que é inexplicável pois seu eixo central é claro e de fácil acompanhamento.
O roteiro mostra um pesquisador “sênior” (Emile) que volta à sua cidade natal para receber um prêmio o que traduz, de certa forma, o fim da carreira. Ele aproveita esse retorno e se convida para ficar hospedado na casa de seus únicos parentes: uma sobrinha e sua filha. Fica sabendo, ao chegar, que a sobrinha, que tinha visto uma única vez há décadas, acaba de romper seu casamento. Todo o filme relata a vivência desse encontro mostrando o perfil emocional dos personagens e como esse perfil contribui para a construção de suas vidas.
Com “flash-backs” o diretor vai expondo as causas e conseqüências das escolhas, atitudes e palavras ditas ou não: - acontecimentos da vida de Emile que foram delineando suas atitudes, as quais, por sua vez, foram “acontecimentos” na vida de sua sobrinha, que influenciaram suas atitudes e assim por diante. Nesse conjunto de causas e conseqüências entra o livre-arbítrio e/ ou a consciência desse círculo-vicioso, como algo capaz de rompê-lo e criar novos horizontes.
Com um discurso bastante claro, Carl Bessai constrói esse poema e faz surgir diante de nossos olhos, como que saindo de uma tela impressionista, os vínculos afetivos entre as pessoas e sua importância. Dessa forma podemos ver as relações entre os seres-humanos como a relação existente entre a copa de uma árvore e suas raízes. Todos sabemos que uma árvore frondosa precisa de grandes raízes para sustentar a copa, porém não nos damos conta da influência das “raízes” humanas sobre sua “copa” e seus “frutos”.
Deborah Kara Unger está esplendorosa mesmo quando sua personagem se mostra neurótica, irada e deprimida. As seqüências que exibem seu relacionamento com a filha são didáticas principalmente por ela aparentar (e pensar) estar fazendo o melhor pela filha e é risível e chocante perceber que, ao contrário, ela desqualifica praticamente a existência dessa filha, alimentando com isso a aridez afetiva.
Também didática é a construção de vínculos afetivos entre Emile (o visitante) e sua sobrinha-neta, o que resulta em novas perspectivas para a vida dessas pessoas, mas, é importante frisar, principalmente para aquela cepa familiar.
Excelente para quem conhece e gosta de Szondi, Kaës, Eiguer, Berenstein ou para quem não conhece nenhum deles mas tem filhos.
Finalmente não uma crítica mas uma advertência: Carl Bessai constrói os “flash-backs” vividos por Emile, inserindo-o no passado com a mesma aparência atual, o que pode confundir ou, ao menos, dificultar inicialmente o entendimento da seqüência.