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| A familia e a adolescência na 'crise de familia' |
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Profª. Drª. Marlene Waideman Além do embaralhamento dos papéis familiares tradicionais produzirem novos contornos familiares, não raro deixam os responsáveis pelos adolescentes bastante aturdidos e a saída é buscarem respostas num serviço de atendimento psicológico com a questão que encerra a seguinte configuração: “não dou mais conta de meus filhos, não sei o que está havendo, sempre tiveram tudo que quiseram, onde foi que errei?” Este tipo de queixa, em geral, é apresenta por famílias que, num primeiro contato, poderíamos apressadamente identificar como igualitárias, democráticas, o que abriria um horizonte de possibilidades de relações familiares.
Entretanto, muitas vezes, num contato mais aprofundado, percebemos que essas mesmas famílias mantêm alguns aspectos mais tradicionais, que poderíamos chamar aqui de arcaicos. Esses pais poderiam apresentar, por exemplo, a expectativa e conseqüente cobrança de uma postura de obediência dos filhos em relação a eles, e isso, em geral, desemboca em conflitos que se manifestam de maneira bem acentuada nas relações familiares. Ou seja, temos nesse novo adolescente um sujeito da contemporaneidade estabelecendo relações entre a emergência do liberalismo econômico e a construção de um sujeito livre e flexível, ao mesmo tempo em que introduz neste espaço de prática familiar, e também a social, a demanda crescente por relações igualitárias, cujos efeitos têm sido descritos sob o nome de crise da família. Não é nova a constatação de que a sociedade tem empurrado a adolescência para frente e, ao mesmo tempo, para trás. A criança já foi considerada um mini-adulto e a adolescência, como fase de vida, nem existia. Por ocasião dos estudos de Freud, ele se recusava a usar o termo adolescência como período, tanto que vamos encontrar em seus escritos o termo “puberdade”, aquele que se caracteriza pelas mudanças biológicas, hormonais e, apenas como tal, tem seus correspondentes/repercussões emocionais e afetivos. Entretanto, o termo adolescência se propagou e estende-se cada vez – para trás e para a frente – à medida que nos aproximamos do contemporâneo. Se as chamadas ferramentas necessárias para uma inserção do adolescente no mundo adulto são cada vez maiores, penso que isso se deve a diversos fatores e não só dificuldade para ele – o adolescente – fazer sua inserção no mundo do adulto e, por consequeência, no mundo do trabalho. A mudança do status de adolescente para o mundo adulto já foi considerado um avanço desejado por ele, uma conquista, um objetivo a ser alcançado pelo jovem, e o foi de maneira muito mais valorizada do que atualmente. E essa mudança de status estava estreitamente relacionada à sua inserção no mercado de trabalho, que, por conseqüência lhe trazia autonomia financeira, condição para se tornar um adulto. O mundo do trabalho, que ficou mais restritivo e com o aumento das exigências, a tão divulgada qualificação da mão de obra, na prática, tem distanciado sim a sua entrada no mundo adulto. Entretanto, penso que isso por si só não explica toda a complexidade da crise de família envolvendo as relações com o adolescente. Todas essas mudanças sociais também trouxeram como mudança de paradigma uma valorização social e até mercadológica, um verdadeiro boom, das características da adolescência e que se transformaram em cultuados privilégios: não é à toa que os valores se inverteram ao tomarmos como referência alguns poucos 30 anos: na sociedade contemporânea a mãe quer estar o mais parecida possível com a filha adolescente, seja em termos de aparência, que vai do corpinho, às roupas, cabelos, adereços e que tais, até às atitudes e não é por acaso que o pai quer ser amiguinho das amiguinhas da filha ou do filho, e muitos lutam suadamente para ter um 'tanquinho'. Há que se considerar que as crianças fazem interpretações das comunicações de seus pais e de seus poderosos silêncios, e também estão presentes as identificações que fazem com aquilo que compreendem acerca dos desejos e conflitos sexuais dos pais, bem como do papel que secretamente são solicitados a representar aí. O que isso pode produzir em termos sociais? O que isso tudo interfere significativamente nas relações familiares? Uma das possibilidades é que esse adolescente filho também tenha dificuldades para adentrar no mundo dos adultos, já que a adolescência tem sido cultuada como a fase ideal e invejada. Se quem já saiu quer voltar a ela, por que outros haveriam de querer sair? Além disso, na casa dos pais, hoje é franqueado aos filhos – cada vez mais precoce e, ao mesmo tempo, mais tardiamente – aquelas mesmas condições que eles teriam que conquistar e que eram exercidas no status de adultos.
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