Mais
Contato
| Família: Amor e Ódio |
| Família | |||
|
Há muito tempo, num reino nada distante, as pessoas (mais frequentemente os homens) tinham orgulho de “possuir” uma família. Naqueles tempos a família era uma posse mais ou menos como de um carro que poderia ser reluzente em seus metais - um carro de luxo, do ano... ou não. Havia naquela época o sonho de ter uma família. Para o homem, uma linda mulher, delicada, prendada e filhos, vários, limpos, arteiros, alegres e inteligentes. Como pano de fundo uma casa grande, bonita e limpa. Para a mulher o sonho era, em primeiro lugar os filhos, uma casa com um belo jardim e uma cerca branca, além de um marido também limpo, cheiroso e bom provedor. Esse sonho refletia o desejo do si mesmo, isto é, o “desenho” que atribuíamos à família desejada, espelhava o desejo de como gostaríamos de nos tornar. Hoje tudo mudou, mas nesse aspecto continua exatamente igual, com exceção de que... no nível consciente explicitamente negamos isso ao negar a família tradicional, ao negar o casamento, ao negar a formalização de uma união, ao negar filhos, etc..
Alguém hoje se arrisca a dizer que deseja construir uma família? Sim, talvez você, mas são poucas as pessoas que admitem isso. Esse sonho aparentemente acabou não se sabe exatamente quando e foi substituído por outros com menor risco de “dar errado”. Assumiu-se ou que essa utopia deveria ser abandonada, pois raramente se realizava ou que esse sonho não fazia mais sentido já que surgiram muitas coisas novas que dão prazer e não custam tão caro (ou não doem tanto). A família tornou-se algo indesejado; desejá-la tornou-se fonte de vergonha. Por que? Vamos considerar não a família que alguém construiu, mas aquela na qual nascemos e não temos nenhuma “culpa” de estar nela. Frequentemente ela não corresponde adequadamente às nossas expectativas financeiras, assim como amiúde não se mostra com a aura de harmonia que gostaríamos de vivenciar ou mesmo ostentar. Quando nos damos conta da realidade mais concreta, percebemos também que ela é fonte de limites e outros incômodos e desprazeres. Com esses antecedentes, por que arriscar? “Laços de família” nos parecem hoje como algemas, correntes, grilhões que não apenas nos prendem, mas principalmente nos machucam (e obviamente fugimos da dor como se essa fuga fosse o objetivo da nossa existência). Por que nos machucam? Estejamos ou não conscientes, esses laços ou grilhões nos ferem porque estão em nós. Estão dentro de nós e não nas outras pessoas que chamamos de familiares. Não há como fugir deles! Eles nos mostram que, caso tentemos, vamos construir a nossa família, dessa mesma forma (na verdade, semelhante, mantendo os traços mais importantes). Por outro lado, a negação da necessidade que temos do “outro” gera um conflito aberto porque sentimos ódio dessa necessidade e culpamos o “outro” por precisarmos dele. Os países nos quais a religião e o poder político são unificados lutam em uma feroz batalha em defesa da família, através de regras rígidas. A Europa culta e tradicional respeita os resultados das pesquisas acadêmicas mais recentes e busca novas formas de gerar suporte ao desenvolvimento saudável das crianças. Os Estados Unidos da América sentem na carne a nocividade das deformações que o desenvolvimento inadequado provoca nas pessoas, através das manchetes policiais de ocorrências naquele país e estampadas internacionalmente nesta aldeia global. A ação norte-americana tende a ser mais policialesca e, como não poderia deixar de ser, hollywoodiana, em filmes açucarados, frequentemente incapazes de convencer alguém com mais de treze anos de idade. Esses “sinais esotéricos” já estão frequentando as páginas policiais do Brasil. Mesmo não frequentando as páginas policiais, eu e você, que não matamos nenhuma criancinha, não torturamos ninguém, não ateamos fogo a nenhuma família após um assalto, nem a nenhum indigente na madrugada em praça pública; nós que não agredimos nenhuma doméstica nem atiramos a esmo em um cinema, nós que nem mesmo convidamos amigos para assassinar nossos pais, nós também temos traços desse conflito interno bem como nossas cicatrizes que incomodam no sapato ou num colarinho um pouco mais apertado. Mesmo aquele amigo que se mostra absolutamente feliz em seu individualismo produtivo e sincronizado com o turbilhão da sociedade moderna, vez ou outra ajeita o cinto, para aliviar a fricção deste, sobre um nódulo no quadril. Se o sonho acabou, porque mesmo assim a família retorna vez ou outra como um fantasma no qual não acreditamos mas que eventualmente surge no espelho ou em um som difuso no meio da noite? Afinal, não vamos nos livrar desse espectro? Possivelmente não no curto e médio prazos pois, mesmo que ela não exista com aquele desenho tradicional, continuaremos a ser frutos dela e ela tentaremos inconscientemente reproduzir, seja com qual roupagem ela se apresentar. É um sonho do qual não nos lembramos “pero”, que sonhamos, sonhamos. A necessidade do “outro” se faz presente. Podemos negá-la, como escreveu Chico Buarque: (Tatuagem Quero ficar no teu corpo feito tatuagem Ela permanecerá em nosso corpo, coração e alma pois somos em parte ela. A prova mais visível e inqüestionável que ela impregna nossas mentes é que, ainda que negando-a, vamos criando mil e uma novas maneiras para pretensamente destruí-la e, ao invés disso, a reproduzimos tacanhamente como nos desenhos infantis. Começamos a suposta destruição adotando o casamento informal, passamos para o casamento “aberto”, a mistura dos papéis, restringimos a procriação, recorremos ao distanciamento afetivo, físico e sempre, por maior que seja a invencionice para distinguir, reproduzimos a essência da família: alguém que sai em busca de alguém e juntos criam sonhos (e frequentemente filhos). Podemos estabelecer um relacionamento homossexual e isso garantirá que não teremos filhos (indesejados), mesmo assim o padrão permanece inalterado. Corremos mas não conseguimos escapar porque tentamos fugir de nós mesmos; não dá! A sociedade engoliu o darwinismo e seu orgulho foi arranhado violentamente quando soube que a Terra não era o centro do universo. Já a “individualidade” parece ser um valor muito maior, por se ligar à liberdade e livre-arbítrio. Em função desse enorme valor atribuído à individualidade, não admitimos nosso vínculo com o passado (com nossa família = nossa formação) e agimos como se, nascidos de uma laranjeira, desejássemos produzir pêssegos. Já faz mais de um século que temos essa informação de forma mais precisa, pesquisada e codificada mas ainda não nos convencemos que “eu” não sou exatamente e propriamente “Eu”; eu sou a soma das minhas vivências e elas têm a cara da minha família e a prova são as marcas que trago, como por exemplo o meu impulso em direção ao “outro”. Dessa forma tenho como “destino” recriar aquela “minha” família. Bem, além da vergonha de “EU” não ser eu, há também o medo! Tempos difíceis os atuais. Temos vergonha de como as coisas estão se dando e medo de reproduzir o que somos, e medo do “outro”. Medo do “outro”! Medo de não conseguirmos executar o aperfeiçoamento que é necessário à (re)produção da “família”, o que é nossa tarefa primordial e da qual buscamos fugir enquanto a perseguimos! Acredite: a tarefa pode ser realizada e se houver consciência, o resultado será sempre bom. O orgulho resultante não precisa mais ser o da “posse” e sim da real e legítima realização.
|