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| Familias contemporâneas ainda constituem lugar de acolhimento |
| Família | |||
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Profª. Drª. Marlene Waideman
Numa mesma família brasileira urbana e chamada contemporânea, o novo convive com o arcaico, em proporções de grande variabilidade. Assim, não há como falar de familia de maneira generalizada. Aqui o foco está na familia contemporânea brasileira, observando ainda que temos vários ‘Brasis’ e, somado a essa nossa peculiaridade, lembrar que o processo de mudança cultural não é linear, numa mesma região, nem na mesma cidade e até mesmo dentro de uma mesma família. Não temos, no Brasil, um volume significativo de estudos a respeito da(s) genealogia(s) das famílias brasileiras. A produção de trabalhos existentes ainda é parca e se concentra na família urbana, com grande prevalência nas famílias de classe média e pobre. Minha experiência acadêmica e clínica só me autoriza a falar sobre essas últimas.
A família certamente mudou e especialmente a família que teve a mídia como parceiro no processo de educar/formar seus filhos, e vamos reconhecer que foi a maioria delas. Não podemos nos esquecer o quanto nossas crianças foram e são ainda – apesar das creches e escolinhas – deixadas em frente a um aparelho de televisão, seja por negligência, descaso, comodidade dos pais, seja por absoluta falta de outra modalidade de babá/cuidador diante da necessidade dos pais ou responsáveis buscarem fora o sustento para essas mesmas pessoas. A cultura do imediatismo, o modelo da sociedade de consumo, a chamada modernidade líquida e essa sociedade do espetáculo foram e são substancialmente cultuadas pelos meios de comunicação, com especial destaque para a televisão, e interferiram e interferem pesadamente na sociedade brasileira e, por conseqüência, na família brasileira, e mais especificamente na urbana. Entendo que no Brasil, embora tenha existido e ainda exista uma burguesia econômica, ela não se desenvolveu como mentalidade, abrindo espaço para uma importação de idéias, por exemplo: as noções de público não são nítidas, há uma permanente invasão do público pelo privado. Na nossa sociedade contemporânea ocidental, a baixa tolerância à frustração, a tendência à passagem ao ato em detrimento de condutas reflexivas e ainda a banalização dos vínculos afetivos – apenas para mencionar alguns temas – tem como concomitância um arsenal de outras mudanças como a alteração da ordem econômica, do quadro social e dos papéis sociais, os quais, por sua vez, alteraram comportamentos, expectativas, objetivos, realizações individuais. E, em termos mais especificamente do espaço familiar, algumas outras mudanças substanciais também ocorreram e ajudam a pensar a caracterização dessa nova família: as mães, assalariadas e exaustas com uma frequente dupla jornada de trabalho, os pais aturdidos com novos papeis compartilhados ainda não assimilados, filhos não mais “obedientes” e sim exclamativos e socialmente descomprometidos. Nessa mesma sociedade fragmentada e egocentrada, proliferam demandas relativas à compreensão do sujeito e, conseqüentemente, dos espaços que o constituem, sendo a família um desses espaços privilegiados. Ao mesmo tempo que essas demandas trazem questões importantes a serem debatidas, também encontramos análises simplistas que decretam a falência e até mesmo a morte da família. Esses diagnósticos se baseiam em avaliações parciais. O que temos mesmo de constatação, e sem entrarmos em juízo de valores, é que o grupo familiar não pode ser tomado como estático, ele é dinâmico. A transformação da organização familiar tem acontecido ao longo do tempo e nenhuma dessas transformações foi capaz de gerar a destituição da família como lugar de acolhimento e formação das subjetividades e é assim que elas – as famílias – continuam a serem caracterizadas. A família como um grupo que integra contextos mais amplos, como a comunidade na qual se insere, tem como uma de suas funções assegurar a continuidade das relações. Nesse sentido, se os membros que originalmente compuseram essa família já foram “picados” e contaminados por esses atributos mencionados dessa sociedade moderna... não há, creio eu, como ficarem absolutamente isentos da possibilidade de os acolherem e transmitirem à(s) próxima(s) geração(ões).
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