TDA/H - Hiperatividade

(Publicado no blog "Filhos no Século XXI ", como “Desabafo” onde há textos escritos sob a emoção ao menos da indignação. Estão sob essa categoria como um alerta aos leitores pelo tom muitas vezes “de poucos amigos”.)


No dia 04/07/2008 um telejornal de abrangência nacional dedicou um longo tempo a uma reportagem sobre o Transtorno do Déficit de Atenção (com) Hiperatividade.

A informação ao grande público é necessária porém a forma como são apresentados os dados, pela rapidez exigida pelo veículo, acabam limitando uma questão importante e distorcendo a verdade.

A reportagem em questão, não só indicou o medicamento capaz de “resolver o problema”, o mais conhecido nos EUA (Ritalina) assim como outro medicamento e laboratório fabricante, com o mesmo princípio ativo (cloridrato de metilfenidato).

Essa matéria foi motivada provavelmente (espero) pelo grande crescimento do diagnóstico de TDA/H, sendo que as pesquisas indicam que 8% da população é portadora do distúrbio.

 

Dois Problemas:

1 - As pesquisas médicas têm definido a etiologia em fatores neurobiológicos, indicando ou um déficit funcional de neurotransmissores ou um déficit funcional no córtex pré-frontal. A transmissão genética também é tida como verdadeira.

Precisamos estar atentos para o fato de que o déficit funcional de neurotransmissores, assim como alterações anatômicas do cérebro podem ter origem no próprio funcionamento do indivíduo em função das suas vivências, pela utilização que é dada a determinadas áreas e processos cerebrais. Se admitimos e cultuamos a plasticidade e adaptação cerebral, necessariamente devemos admitir que ela ocorre em qualquer sentido e direção.

A transmissão genética é plausível e é inquestionável quando há sintomas determinados no nascimento porém, após a inclusão dos contatos interpessoais, há fatores relacionais interferindo no processo, o que justifica os casos de TDA/H nos quais o transtorno não está presente nos pais.

2 – Há um consenso quanto a incidência na população como sendo de 8%. No entanto há grande variação nesse percentual em função da região. Em determinadas regiões a incidência supera esse número e em outras chega a 2% quando muito (Brasil). Na europa encontramos índices como 0,01%!

 

Uma Distinção Necessária:

Além dos casos de TDA/H devidos a fatores neurobiológicos de causa desconhecida, nos quais possivelmente uma das únicas alternativas atuais é a utilização de fármacos que reduzam a ocorrência dos comportamentos socialmente indesejáveis, mesmo que com isso outros comportamentos também sejam inibidos ou que haja outros efeitos, também indesejáveis, é necessário contar que o maior percentual de incidência desse transtorno é devido a uma segunda forma de TDA/H cuja origem é conhecida: fatores relacionais.

A presença do TDA/H em crianças cujos pais não apresentam esse transtorno vem indicando a origem da segunda forma desse transtorno pois nesses casos estão presentes:

a) insurgências externas que tiram a criança (na gestação e/ou primeira infância) do foco de atenção da mãe.

b) ao menos um dos pais (a mãe mais frequentemente), apresenta um quadro de labilidade afetiva/descontrole emocional, com a presença de explosões emocionais ocasionais, oferecendo respostas inesperadas desde a elevação da voz, rupturas intempestivas no contato, até violência física despropositada.

c) a reduzida sensibilidade ou empatia e/ou rejeição do papel ma(pa)terno.

 

TDA/H por disfunção relacional

Há um grande número de pesquisas recentes e algumas já citei neste blog, confirmando as indicações da influência das relações estabelecidas entre a criança e sua mãe, na gestação e primeira infância, na formação do indivíduo (visível no comportamento e também no processamento cerebral), indicadas anteriormente por vários autores como Bowlby e Winnicott, por exemplo.

Essa disfunção relacional acontece pelo desenvolvimento inadequado do processo de formação da identidade. Para esse entendimento vamos dividir esse processo em 3 fases distintas:

1 – O bebê se identifica com a mãe – durante a gestação e nos primeiros meses após o nascimento.

2 – O bebê descobre o “outro” - a mãe é algo distinto dele e pode atender ou não suas necessidades.

3 – O bebê descobre a si mesmo – ele é um indivíduo distinto dos demais (da mãe e outros).

Esse desenvolvimento se dá adequadamente pelo suporte total conferido pela mãe ao filho. Estão implícitos nesse suporte os cuidados higiênicos, de alimentação, etc. e também de estímulo ao desenvolvimento de sinapses, que passam inicialmente pelos sistemas sensoriais e se ampliam rapidamente pelas formas de contatos – emoção e sentimento e finalmente “racionais”, com o desenvolvimento da fala.

Nesse momento todo o contato é importante porém destaco a regularidade como um primeiro ponto onde uma disfunção pode ocorrer. Um cuidador (mãe) ansioso, “ausente” ou com descontrole emocional tende a apresentar alguma desorganização e irregularidade em horários (banho, alimentação, troca de fraldas, sono, etc.) assim como no volume de voz, e na presença/ausência de estímulos (berço/colo; fala, riso, ninar, manhês, etc.).

Compreender o “outro” é a tarefa da criança senão única, fundamental desse período. A regularidade/ritmo é o primeiro indicador de uma compreensão possível ao bebê – de uma organização (construção mental) do mundo externo, pelo ritmo percebido nas ocorrências (veja a influência da audição musical no raciocínio lógico de crianças).

O segundo e definitivo ponto que estabelece a ansiedade e incompreensão relacional é a irregularidade de humor do cuidador (ou apatia), na fase em que a criança já tem algum domínio verbal (e compreensão lógica). O cuidador que não tem a criança como centro do processo relacional e, ao invés disso, se relaciona com ela a partir das suas necessidades/estados de humor, apresenta frequentemente situações acima da capacidade de compreensão da criança. Dessa forma a criança não tem a oportunidade aprender, a seu tempo e condições, como é o “mundo externo” e como se dão as relações. Temos com isso: ansiedade e carência de relações/contato (aceitação) ou alheamento. Os sintomas adicionais da TDA/H como impulsividade e variações de humor são aprendidos com o exemplo do cuidador e/ou decorrências das vivências (sentimento de rejeição) e visão desorganizada (caótica) do que lhe é externo.

 

Cura”:

Há uma controvérsia quanto ao prognóstico dos casos de TDA/H com tratamento medicamentoso. Alguns afirmam que esse distúrbio não cessa; outros afirmam que em parte dos casos acontece a remissão natural depois da adolescência. Essas duas possibilidades acontecem. Por que os sintomas desaparecem em alguns casos, quando o indivíduo atinge a maturidade? Em parte são os casos onde houve a elaboração consciente das questões relacionais que acabaram por ser “compreendidas”.

O desconforto que motiva este desabafo é que um percentual desconhecido (mas que pode ser no mínimo de 4% dos casos diagnosticados como TDA/H, principalmente nas grandes cidades) vêm sendo “tratados” com cloridrato de metilfenidato, sem nenhuma perspectiva de “cura” e eventualmente com algum abrandamento dos sintomas, porque é desconsiderada a existência da segunda forma do transtorno, a de origem relacional. Caso fosse considerada essa segunda forma, os pais poderiam agir de maneira a ajudar seus filhos na superação desse transtorno.

Utilizando o mesmo tempo gasto na busca de solução farmacológica, poderiam buscar informações e implementar mudanças que facilitassem a compreensão relacional e superação de comportamentos ligados ao transtorno. Nos casos em que o adulto “significativo” para a criança é um cuidador de berçário/escolinha, haveria maior possibilidade deste ser identificado e deixar de ser fonte de reprodução desse transtorno em um grande número de crianças.

Pais que colocam os filhos no centro de atenção precisam saber que eles podem contribuir e promover a remissão dos sintomas na maioria dos casos de TDA/H. Adultos que apresentam o distúrbio podem, com maior facilidade, compreeender as conexões entre diversos sintomas e empreender ações que os limitem, reduzam, eliminem.