Dizem que Sou Louco

Se eles são bonitos, sou Alain Delon
Se eles são famosos, sou Napoleão

Balado do Louco – Arnaldo Baptista/Rita Lee (Os Mutantes)

“De médico e de louco, todo o mundo tem um pouco” – diz o ditado popular.

De certa forma é verdade – todos temos os componentes básicos para o desenvolvimento de patologias que o senso comum classifica como loucura. De fato esses componentes básicos para o desenvolvimento de patologias, em sua maioria, não são nada mais que os componentes básicos para a genialidade, para a criação artística excepcional, para talentos extraordinários nas áreas científica ou humana.

Resumindo: os componentes básicos presentes em praticamente todos os indivíduos, são os mesmos que permitem a genialidade, a conformidade e a loucura.

Vamos comparar a bipolaridade com o comportamento dito normal. Na bipolaridade uma pessoa pode alterar seu comportamento da mais profunda depressão para uma extremada e esfuziante euforia, não sendo incomum que se coloque em risco e se esgote fisicamente. A pessoa comum; eu, você, podemos ficar deprimidos eventualmente assim como, sob determinadas circunstâncias, podemos ser tomados pela euforia. Diante de ocorrências que ultrapassam nosso limiar, podemos até mesmo entrar num quadro de profunda depressão.

O que faz com que alguns de nós nos comportemos freqüentemente em conformidade com o que é esperado socialmente e, outros, freqüentemente se comportem de forma excepcional seja de forma socialmente valorizada (genialidade, por exemplo) ou socialmente condenada (loucura, violência extrema, etc.), se deve ao padrão de funcionamento psíquico-emocional estabelecido, no mais das vezes, durante nossa formação.

Na vida intra-uterina é que nosso cérebro começa a se desenvolver e essa etapa implica em grande fragilidade. Mesmo depois que nascemos, também nosso cérebro continua a se desenvolver, da mesma forma que o restante do nosso corpo. Nossa vida emocional, da mesma forma que nosso mundo intelectual, se desenvolve durante toda nossa existência mas, de maneira mais intensa, até o final da adolescência. Nessa época também (por volta dos 20 anos de idade) é que o cérebro se completa fisicamente!

Nossos padrões de comportamento começam a se formar ainda na vida intra-uterina e continuam essa formação, se consolidando ou se alterando, na infância e adolescência. Em razão da relação que estabelecemos com o mundo exterior, construímos nosso modo de ser.

Desde muito pequenos já podemos nos mostrar agitados, birrentos, deprimidos. Quase toda criança confabula e achamos isso normal. A confabulação, quando se consolida e em nível socialmente classificado como exagerado, é chamada de loucura. Precisamos do outro (mãe, pai, amigos, professores, etc.) para entendermos a distinguir o certo do errado, o bom do mau. A linguagem é o meio mais eficaz que dispomos para acessar essas informações do outro. A linguagem é, então, o meio necessário para a continuação do nosso desenvolvimento pós primeira-infância, quando as emoções deixam de ser o veículo privilegiado, ampliando-se o espaço do intelecto.

Através desses vínculos significativamente emocionais por terem sido estabelecidos durante nosso surgimento, é que construímos nossa loucura ou genialidade. É dessa forma, muitas vezes desde bebês, é que são construídos os monstros que farão as manchetes dos cadernos policiais dos jornais de décadas posteriores.

Quase em todo o mundo civilizado há uma obrigação constitucional de que crianças freqüentem escolas. A formação escolar além de contribuir para a economia do país, gerando cidadãos mais capazes e competentes para o trabalho, também contribui de forma significativa com a economia, ao ampliar a saúde social através da saúde emocional e psíquica da população. Uma boa formação psico-emocional gera não só pessoas mais capazes intelectualmente para essa contribuição, mas principalmente, dispostas a realizar o seu potencial de forma construtiva.

A formação psico-emocional começa, no entanto, na gestação e depende, então, da gestante e dos cuidadores no início da vida. O despreparo desses atores tende a comprometer ou dificultar o trabalho posterior desenvolvido na escola.

A escola vem sendo chamada ultimamente para contribuir com aulas sobre sexo e o objetivo delas é reduzir a gravidez indesejada na adolescência e as doenças sexuais (principalmente a AIDS). Um salto qualitativo que precisa ser dado é a introdução de aulas sobre desenvolvimento humano, que forneça informações sobre casamento/relações duradouras, filhos, incluindo seu desenvolvimento físico, emocional e intelectual.

Qualquer jovem adolescente é capaz de reproduzir e nossa sociedade parece entender que ninguém precisa aprender a cuidar de uma nova vida que surge. Nossa sociedade parece entender que ninguém precisa aprender para ser capaz de desenvolver, hoje, a capacidade de realização dos futuros adultos.

Parece que nos conformamos com a idéia de que é eficiente a transmissão desse conhecimento através dos pais, mas no entanto não nos conformamos com a idéia de filhos que contratam o assassinato dos pais e de que pessoas, mal formadas, arrastem crianças pelas ruas numa tentativa de assalto.

Nossos jovens, que começam a ficar, merecem receber mais informações para que sejam capazes de construir uma sociedade mais saudável.