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Written by Carlos Messa
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Foram nove meses de gestação e mais quatro de afastamento legal para aleitamento. É, eu tinha me afastado do emprego quase em “trabalho-de-parto”. Agora estava voltando à empresa. Não é fácil, sabe? Tinha um lindo menino. Lindo. Voltar ao ambiente empresarial... é um outro mundo. É como se estivesse tirando minha pele para vestir outra. Não era só a dor de arrancar a pele; era também tirar a pele que você mais gosta, que curte, um mundo bom, florido, e colocar uma outra pele que mais parece um macacão sujo, para entrar em um esgoto.
Competição. E ainda dizem que é bom. Citam os eucaliptos que crescem mais rápido quando competem uns com os outros, pela luz do sol. É, crescem mesmo. Só esquecem de ver que ficam finos, fracos, se quebram com facilidade; servem para celulose e olhe lá. Não são árvores verdadeiras. Se esquecem também de que se há um pequeno erro no cálculo da distancia entre um e outro, eles se matam, de cada 4 sobra apenas um. Outra: não somos eucaliptos; não somos árvores; não somos, também, irracionais, que raramente comem um outro da própria espécie. Somos inteligentes. Será que não conseguimos viver de um outro jeito, sem destruir o outro?
Já havia ligado para uns amigos para perscrutar mas nunca se sabe. Receberia o cartão vermelho agora, no primeiro dia?
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Written by Carlos Messa
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Chegavam saídos da escuridão.
Enquanto passavam podia-se ver que os que estavam sentados, tinham os olhos fechados. Quase todos seguravam a cabeça com as mãos, alguns sustentado-a pelo queixo, outros pela testa, alguns, de lado nas têmporas. Os que estavam em pé, espremidos uns contra os outros, tinham os olhos abertos (nem todos) mas pareciam distantes, ausentes. Todos permaneciam em silêncio.
A dor se estampava em seus rostos. Os mais velhos tinham traços e sulcos que imprimiam suas histórias nas feições e, seus olhares mostravam a desesperança naquele, agonia no outro, um grito sufocado em um terceiro. Os olhos vermelhos, olheiras. Umas maiores, mais fortes. Olhos fundos, olhares perdidos. Espectro do sofrimento. Surgiam da escuridão como se chegassem do inferno.
A grávida não trazia a aura da esperança, típica desse estado: suas feições escorregavam pela face como se nada em sua vida pudesse sustentá-las. Um rapaz, quase menino também estava inerte. Depois de descer parece que vestiu um novo corpo e saiu andando com outro ar; um ar de empenho mas sem alegria. Silenciosamente andou rápido como se destemido mesmo indo à batalha: iria matar para não ser morto.
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Written by Carlos Messa
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Ela se chamava Dona Lucia. Depois das férias o escritório estava precisando de uma limpeza radical e resolvi testar essa nova faxineira que me haviam recomendado.
Contratei-a para uma faxina geral e fiquei no escritório. Não tinha confiança obviamente, pois não a conhecia. Depois, se ela fosse boa mesmo, veria se ela queria fazer o serviço semanal mais pesado, desde que aceitasse um valor menor pois o preço para uma única faxina era um absurdo. Naquele momento minha tarefa era observar.
Dona Lucia não era uma pessoa muito agradável de se olhar. Sua idade era quase impossível de ser avaliada. Na falta de referência mais consistente, chutei próximo dos 50. Forte? Não. Talvez até menor que o desejável para a função. Não chegava a ser franzina. Fora forte, talvez. Sacudida sim. Passos rápidos, começou já levantando poeira. Não fiquei olhando tudo mas pareceu que ela trabalhava bem.
Depois de umas 3 horas de trabalho parecia claro que seu ritmo tinha se reduzido significativamente. Fiquei mais atento e notei que ela foi ao banheiro uma, duas, três vezes e cada vez em intervalos menores.
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Written by Carlos Messa
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Foi assim de repente (“não mais que de repente”), as crianças deixaram de chorar (e acordar seus pais na madrugada). Não foi só isso; deixaram também de mijar e cagar, infestando o ambiente de fedor e economizando um bom dinheiro da compra de fraldas descartáveis. Pararam de adoecer, ter febre, tosse e economizaram em muito o ânimo e esperança dos pais. Os médicos se ressentiram.
Pararam também de cair e se machucar. Pararam de perguntar coisas. Pararam de impedir os pais de irem ao cinema. Pararam de forçar os pais a continuarem juntos. Pararam de consumir recursos com seguro saúde, com escola, roupas, brinquedos e mil outras coisas. Pararam até de dar dor de cabeça com os traficantes na escola.
As crianças pararam. É, deixaram de existir, assim, de repente.
Os pais ficaram no céu. “Era tudo o que queriam”.
Há muito crianças eram apenas uma responsabilidade. Eram um peso. Custosas demais. Viver já era muito difícil sem crianças. Não se sabe se por hábito ou por acaso, elas continuaram ainda a nascer por algum tempo. Eram dadas às escolas para crescer, amadurecer e se tornarem orgulho dos pais.
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Written by Carlos Messa
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Sempre que você sente que a situação é muito complicada, se você procurar, verá que um anjo vem ajudá-lo. Você deve saber disso porque, afinal, todos passamos por esses momentos.
Os anjos são enviados e têm uma missão específica. Quando as coisas melhoram eles desaparecem. É assim.
O que eu quero contar é um caso no qual isso não aconteceu.
Foi estranho. Tão estranho que nem me lembro qual a situação que fez com que ele viesse. Não sei se o chamei. Só me lembro que lá estava ele, como sempre prestativo. Não sei qual foi sua intervenção nem quão rápido ou eficiente ele foi. Lembro apenas de maravilhar-me com ele. Os anjos são sublimes. É claro que uma única palavra é pouco para descrever um anjo mas “sublime” se aproxima bastante.
Pude maravilhar-me e gozar desse prazer simplesmente porque, terminada sua missão, se é que este anjo tinha uma, ele não se foi; não sumiu. Ficou.
É, eu tinha um anjo permanente! Ele, na falta de maiores desafios, fazia pequenas coisas como me abrir portas, preparar meu drink do “happy-hour” (muito calor? Cerveja. Dia seguinte quente? Uisque. Vinho ou conhaque em outros momentos). Tenso? Uma massagem nos músculos do pescoço e ombros.
Era também fantástico ter companhia e, melhor, o sentimento de nunca estar só. Um presente de Deus.
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Written by Carlos Messa
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Era a festa do casamento do Jorge. Ele não queria nada disso, eu sabia. Nem sequer o registro civil. Ele queria, como se dizia, juntar o trapos, e ela topava. Filha de japoneses, meiga e apaixonada como ele.
Não resistiram, no entanto, às pressões familiares e se casaram no civil, religioso e agora tínhamos esta festa.
Jorge aceitara mas não tinha nenhum entusiasmo com essas formalidades e nem mesmo com a festa.
Tieko, que eu já conhecia de outras festas trouxe seu pai. Ele apertou minha mão agradecendo e sentou-se ao meu lado. Não parecia feliz mas não estava infeliz.
Sorri também mas sem entusiasmo, estava pensando no que ele tinha dito.
Teruo tinha sua quitanda naquele lugar há mais de três décadas. Agora podia se orgulhar de sua origem já que o Japão é reconhecido como uma potência mundial mas pouco tempo atrás o japonês era só um imigrante, estranho, com dificuldades de se fazer entender – tintureiro ou quitandeiro.
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Written by Carlos Messa
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Não tinha uma periodicidade definida. Acontecia assim, de tempos em tempos, ordenada menos pelo tempo decorrido e mais pelo sentimento. De repente estava agendado: Domingo iremos “na” Tia Helena.
Não sabíamos se eles estariam lá (eles todos, a tia, o tio, os primos, oito ao todo). Não telefonamos para combinar porque não tínhamos telefone (nós e eles).
Poderia acontecer de eles não estarem mas seria uma grande coincidência. Onde iriam? Poderiam vir para cá, em casa, isso sim. Nunca aconteceu.
De qualquer forma levantávamos cedo. Eram, no mínimo dois ônibus, quarenta minutos cada um.
Queríamos chegar cedo para aproveitar bem o dia e também para que, se eles tivessem planos de sair, os pegaríamos a tempo.
Simples.
Eu iria na “televisão”. Era assim que chamávamos o primeiro assento junto ao para-brisa do “papafila”. O “papafila”, se você não se lembra, era um ônibus enorme puxado por um cavalo-mecânico. Era uma daquelas promessas de campanha de um político que conhece as necessidades do eleitorado e consubstancia a solução em um protótipo. Ganhou e colocou nas ruas. Não resolveu nada, evidentemente, mas cumpriu a promessa.
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Written by Carlos Messa
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Era uma acareação. Dona Maria de Fátima havia me contratado para a causa mais importante da minha carreira até aquele momento: abuso sexual.
Nossa cidade era quase apenas uma vila, tão pequena. Não havia casos assim lá. Nem outros além de pequenos furtos e brigas, algumas passionais.
Dona Maria de Fátima era professora no colégio há cerca de dois anos. Tinha vindo da capital, ao que tudo indica, para usufruir da tranqüilidade de Vista Alegre. Só ela e a filha. Infelizmente agora tinha ocorrido essa tragédia.
Ela tinha me chamado desesperada quando ouviu uma criança vizinha gritando para a mãe: -“Não foi comigo, mãe, o Olimpio tocou a Fatiminha.”
Fatiminha era a filha de Maria de Fátima. Uma linda menina de 8 anos, viva, muito esperta e, para nós daquela cidade, aparentemente ousada.
Maria de Fátima tinha se desconcertado, gritou para a filha, levou-a ao quarto e começou a fazer perguntas, se o Olimpio tinha ficado nu, se tinha encostado os genitais nela, etc. A menina, no entanto, devia estar assustada demais e só chorava, sem responder pergunta nenhuma. Dona Maria de Fátima, em seu desespero, arrancou a roupa da filha e fez um exame visual superficial, sem encontrar nenhum sinal de violência nas partes íntimas da menina.
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Written by Carlos Messa
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Faz frio. O vento é forte e constante. Sempre na mesma direção. Há alguma variação: às vezes vem uma rajada mais forte, às vezes uma rajada muda um pouco de direção e me tira o equilíbrio antes de ser obrigado a, novamente, retomar o curso.
Só há horizonte. Na esquerda, na direita, em frente, atrás, só o horizonte. Terra quase nua, alguma grama, nenhuma árvore, nenhum galho mais alto, nenhum arbusto. Pedras. Não há montanha ao longe nem um monte, nada, só o horizonte.
Quase escuro. Não noite densa mas não vejo o sol. Céu espesso. Grossas nuvens baixas.
Frio gelado, terra meio úmida e pedras.
Só se vê o escuro e o infinito.
Meus passos não provocam marcas. Nenhuma pegada no chão.
Parece o fim que se arrasta e nunca acaba. O pior fim: o que nunca termina. O escuro e inóspito. Desconforto.
Nenhum rato mas também nenhuma cobra. Não há vacas pastando ao longe. Não há cercas. Não há cavalos selvagens correndo naqueles horizontes.
Também não parece que está lá na frente, depois do que é visível, a nova possibilidade. Parece não haver mais nada, além das pedras, alguma praga rasteira e a terra.
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Written by Carlos Messa
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Eu a vi no shopping.
Eu estava naquela fase, você sabe, meio carente.
Quando o amor incondicional da mãe já não diz nada; quando família só enche o saco, procuramos nosso canto. É um novo amor: nós mesmos; sozinhos, capazes de enfrentar o mundo.
Eu já tinha deixado a família, tinha conquistado meu apartamento mas essas novidades tinham passado e eu a vi no shopping. Linda. Graciosa. Os braços artisticamente torneados e com um movimento mágico.
Gostei mas não fiquei parado olhando. Continuei meu caminho mas estava mais alegre. Em casa percebi que ela não me saia da cabeça. Sonhei com ela.
Me apaixonei.
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