O Amor Incondicional
Written by Carlos Messa   

A impressão que se tem é que ao falarmos do amor saímos do campo real e entramos em devaneios românticos. Não é esse o intuito deste texto.

Vamos olhar com algum detalhe o tratamento que um bebê recebe e sua influência no papel de pai-mãe que esse bebê terá quando adulto.

 

Ter e Ser:

Já tratei em alguns textos sobre o perfil individualista da geração atual. Não sou eu que criei esse perfil; possivelmente quem primeiro tenha desenhado esse perfil seja o pessoal de pesquisas sociais para os departamentos de marketing das grandes empresas. O que eu tenho feito é mostrar a relação entre a formação das crianças, seu comportamento quando adulto e sua influência na geração seguinte.

 

 

 

 

Vamos fazer uma distinção entre ser pai-mãe e ter filhos: uso ter e ser para facilitar o entendimento de uma distinção complexa. Ser mãe-pai implica em acrescentar à individualidade uma característica que passa a ser parte integrante dela. Ter filhos indica uma situação que mesmo sendo desejada e percebida como positiva, que acrescente algo (status?), é acessória, agregada e não integrada, e por isso possivelmente transitória.

Ser pai-mãe ou ter filhos são então formas de nos relacionar com o que nos é externo (o “outro”), por estar impressa em nossa matriz de relação. Não podemos escolher ser ou ter, essa é uma pré-definição do nosso modo de reagir ao “outro” e dessa forma nos comportamos.

 

Amor “verdadeiro”:

As mulheres desta geração podem ter uma grande surpresa ao engravidar ou dar à luz: descobrir o tal do amor incondicional. Que diabos é isso? É a descoberta da possibilidade de ser de um outro modo: querer amar, gostar de amar, sentir prazer em amar, ao invés da experiência anterior que era querer ser amada. Bem, isso indica um amor que o senso comum chama de “verdadeiro” e não o “incondicional”! É isso mesmo – eles se misturam e se confundem.

Talvez isso tenha começado com a equiparação feminina; os homens eram vistos pelas mulheres como incapazes de amar, distantes, utilitários e o amor incondicional sempre foi feminino, “de mãe”.

O amor “verdadeiro”, incondicional”, “de mãe”, se apresenta uma dificuldade de definição, pode ao menos ter algumas características identificadas. A primeira delas é que independe das características do “outro”. Um dos mais belos relatos que ouvi foi de uma mãe falando de seu filho “down”, com o mesmo amor e alegria de ser mãe, que vemos em uma mãe de um criança “normal”. Outra característica é que o ser mãe-pai, implica em certa permanência. É uma relação que indica constância e consistência. A sociedade moderna já tem uma pré-definição da impossibilidade da constância – tudo é impermanente pois o amanhã é imponderável. Não no sentimento de amor (incondicional).

 

Razão e emoção:

Com isso entramos em mais uma complexidade desse tema: tratamos da questão sentimento em confronto com o aspecto razão. A razão nos diz que tudo é impermanente e o sentimento nos leva a agir para que se realize a constância. É a luta racional por uma utopia.

O antigo casamento previa essa constância, que nos parece agora inconsistente/irracional. Não é possível assumir compromissos de longo prazo pois “as coisas mudam”. O casamento, no entanto, pode gerar filhos e estes, em decorrência, recebem a mesma carga de impermanência recebida pelo “casamento” atual.

A postura individualista, frequentemente dominada pelas definições racionais, indicam a irracionalidade da postura emocional e a postura emocional retruca com o questionamento do porquê da primazia racional. Esse é o drama freqüente na atual geração. Quando a razão está vencendo essa batalha, pode permanecer ainda o sentimento de insatisfação – não-realização. Quando o sentimento está vencendo essa batalha, pode surgir o pensamento racional (contábil) de perda (receitas menores que os gastos). Dessa forma o antigo casamento não faz mais sentido da racionalidade atual porém o sentimento de falta (carência) se faz presente.

 

Círculo vicioso destrutivo:

Um dos grandes problemas que vejo nessa questão é que estamos desconsiderando que a criança, desde a gestação e por um longo período após o nascimento, é essencialmente emocional (há uma progressão de transferência da primazia emocional para a racional na proporção da idade). Em função disso ela precisa desse amor (incondicional), da constância e consistência. Sem isso acontece algo que não sabemos ainda definir e que para nós, racionais, é como um vazio existencial com efeitos bem concretos: nos casos extremos a criança definha, deixa de se alimentar, tem seu desenvolvimento mental reduzido e/ou estancado, deixa de sorrir, não fixa o olhar em um adulto que se aproxime, não “aprende”, adoece e isso leva à morte. Morrer de amor (ou pela falta dele, ao menos) é real, é possível, é constatado objetivamente (racionalmente).

E nos casos em que a carência não é tão extrema? Há os mesmos reflexos, atenuados e com efeitos retardados ou no longo prazo. Alguns desses reflexos possíveis e não em ordem de importância: egoísmo/individualismo; sentimento de solidão, de abandono, de rejeição; depressão; ansiedade; dificuldades nas relações; insatisfação; irritabilidade, etc.. Esses reflexos tendem a fazer com que a pessoa não crie vínculos consistentes.

Podemos ver, então, que esse é um mecanismo que se auto alimenta: uma criança que não recebeu amor (incondicional) consistente e com permanência, torna-se individualista (ao menos) e não consegue passar amor consistente e com permanência aos seus filhos, tornando-os individualistas (no mínimo como vimos acima).

 

“I, me, mine”:

A fonte da contradição (do sofrimento) é que nos tornamos racionais porém continuamos a sentir falta de afeto e talvez romanticamente, do amor incondicional. Queremos – precisamos do amor (incondicional), mas não arriscamos sentí-lo (oferecê-lo) porque podemos “perder” com isso! Perder o que? Perder coisas concretas, sofrer, etc., porque aprendemos que o importante (racionalmente falando) é receber, ganhar, acrescentar ao patrimônio.

O amor (incondicional) nos parece contrário à vida inteligente: caso tenhamos a informação de que uma empresa da nossa carteira de ações está com problemas financeiros, a atitude inteligente é vender as ações dessa empresa, eliminando-as de nossa “carteira”, conseqüentemente eliminando o risco de perdermos dinheiro. Da mesma forma, se algumas mudas de nossa plantação estão pequenas e frágeis, a atitude inteligente é eliminá-las do canteiro, aproveitando o espaço para incluir mudas mais fortes. A atitude que consideramos “inteligente” é a eliminação do frágil e do insatisfatório e a obtenção de resultados no curto prazo. Estamos desconsiderando nosso papel no todo. Parece que não faz sentido agir de forma produtiva para a humanidade – manter uma ação que pode se enfraquecer, para ajudar a empresa e eventualmente ganhar no futuro? Burrice.

Nesse conjunto as pessoas mais bem informadas deixam de ter filhos já que a relação afetivo-sexual transitória é mais produtiva e ter filhos é altamente dispendioso. Pessoas menos informadas e menos capazes de maior ganho financeiro é que têm filhos e, justamente em função dessas carências, são as que oferecem uma formação menos sofisticada. Dessa forma a humanidade tem seu desenvolvimento comprometido (no mínimo retardado).

Ao deixarmos de apostar na utopia deixamos de apostar na humanidade, restando-nos apenas a nossa existência enquanto indivíduos. Não podemos chamar a isso de individualidade e sim de individualismo. Paralelamente um “algo” indefinido nos deixa insatisfeitos, nos gera sofrimento e... não sabemos o porquê. Talvez pelo nosso alto grau de racionalidade e baixo de sabedoria.