Sutilezas da Guerra entre os Gêneros
Written by Carlos Messa   

Tiger Woods virou notícia, desta vez não porque ganhou 110 milhões de dólares em um ano jogando golfe, mas pela briga conjugal ocorrida ao ser descoberta sua “escapada” sexual.

Tiger Woods sempre aparentou ser o tipo “família”, religioso, muito ligado à esposa e filhos.  Quando da descoberta da infidelidade, surgiram ao menos 3 diferentes mulheres com quem ele se encontrava, uma delas há 3 anos.

O fato incomoda a sociedade e choca por arranhar nossas crenças mais comuns, mas um olhar mais atento basta para indicar que o ocorrido não é assim tão inesperado.

 

O que é bastante interessante de ser considerado não é a notícia em si, mas o que a sociedade faz com ela:

A revista Veja 2142 trouxe a notícia detalhando os fatos e termina dizendo que “o casal permanece trancado em casa” e: “Pelo movimento de entra e sai, especula-se que ele (Tiger Woods) já está pagando pelos erros: além da prisão domiciliar, viu-se submetido a terapia conjugal intensiva”.

 

A piadinha feita pelo repórter, de que Woods está sendo punido ao ficar recluso para fugir da imprensa é verdade inquestionável já que é um fato o assédio da imprensa em relação aos “famosos” e o interesse da sociedade nesse tipo de episódio. A questão importante é que, ligada a ela, vem a segunda “piadinha”: o “submetido a terapia conjugal intensiva”.

A brincadeira de que fazer terapia de casal diante de uma crise desencadeada por infidelidade é uma punição, “brinca” com o quê?

a) – que a terapia de casal é uma panacéia para acalmar mulheres traídas?

b) – que ele deve se “submeter” por não ter feito “a coisa direito”?

c) – que ele se submete a esse “vexame” para não perder alguns milhões de dólares com o divórcio?

Nas alternativas “a” e “b” podemos entrever o pensamento masculino típico do século passado, no qual a infidelidade sexual não é condenável. O homem do passado “aceitava” o acordo de fidelidade sexual apenas por imposição social (feminina?). Ambas as alternativas tratam da “guerra conjugal”, do século passado.

A alternativa “c” é diferente; ela parece surgir da cabeça masculina que se “cansou” do gênero feminino, e está considerando que Woods, tendo acumulado uma montanha de dólares, não deva mais fidelidade a “uma ex-baby-sitter” (sua esposa).  Essa visão não trata mais da antiga “guerra conjugal” e sim de uma bem atual “guerra entre os gêneros”.

Naturalmente não estou discutindo aqui valores e princípios. Não estou defendendo que se deva ou não se deva ser fiel sexualmente. Cada casal deve estabelecer o acordo que lhe for mais conveniente.

A infidelidade sexual não é um fenômeno recente nem é um comportamento masculino. A infidelidade já foi um comportamento feminino séculos atrás e voltou a ser freqüente com a integração feminina ao mercado de trabalho, no século XX.

A fidelidade sexual é uma das grandes utopias perseguidas no casamento (chamado “burguês” por pessoas que se consideram de vanguarda) nos últimos dois séculos. O acordo de fidelidade conjugal representa a aliança efetuada por duas pessoas, chamada de utópica por contrariar o aspecto emocional. Porque então é feito esse acordo? Ele representa um sacrifício no aspecto emocional, auto-imposto, que nos lembra (razão) do compromisso assumido. Buscamos nesse acordo a supremacia da razão sobre a emoção e com isso um laço, aliança ou vínculo forte, que nos faz lembrar do “amor incondicional”.

Esse acordo de fidelidade sexual fez muito sentido no casamento dos últimos dois séculos, para manter a instituição (casamento), ao garantir a fidelidade feminina (apesar das poucas oportunidades face ao seu papel de “rainha do lar”) e garantir a possibilidade de “escapadas” masculinas, sem que a instituição casamento ruísse. Hoje, com a liberdade sexual, a independência feminina, o acordo de fidelidade não faz muito sentido; restou apenas a questão “confiança”, que representa a qualidade do vínculo: a quebra de um compromisso desse porte acarreta a perda da confiança e a quebra do vínculo afetivo.

 

As alternativas “a” e “b” da piadinha do texto da revista Veja, é então uma peça antiga, talvez antiquada, do pensamento machista primário, que considera apenas a traição sexual e não a inconsistência do vínculo e a deslealdade à (própria) palavra empenhada.

Na alternativa “c” tudo muda: se “a cabeça” que a criou estiver considerando que Elin, esposa de Woods, impõe seus termos como lance de um jogo que pode valer um bilhão de dólares, então essa piada está sugerindo de forma irônica que o gênero masculino está sujeito a uma armadilha pelo gênero feminino (com o apoio das instituições) e expõe, mesmo que de forma enviesada, as dificuldades atuais do relacionamento afetivo-sexual duradouro pela guerra surda, no mais das vezes deflagrada apenas abaixo do limiar da consciência.

 

É bom lembrar também que a terapia de casal não visa “recuperar” alguém para a fidelidade conjugal, mas trata sim dos reais motivos pelos quais as alianças são rompidas.