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| Amor Romântico é Ilusão? |
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Pode acontecer de uma criança ou adolescente ficar estarrecida ao descobrir que um bebê se alimenta apenas de leite (preferencialmente o materno). Essa estupefação acontece porque quem faz essa “descoberta” consome diversos alimentos, sólidos e líquidos, de diferentes origens e propriedades nutricionais. Não nos damos conta, mas o bebê precisa também de um segundo alimento para manter-se saudável: contato humano. O bebê precisa do contato físico, de ouvir a voz, de aprender a reconhecer, a responder a seu cuidador. Sem esse segundo alimento o bebê não se desenvolve adequadamente (alguns chegam mesmo a morrer). Esse contato humano se reveste de carinho, afeto, intimidade, emoções
e naturalmente a dedicação do cuidador, o que habitualmente chamamos de amor. Na medida em que a criança vai crescendo, vai também ampliando seus contatos: tios, avós e depois vizinhos, etc.. Na escola começa a especializar esses contatos, diferenciando a intimidade, intensidade, confiança, sob diferentes categorias: colegas, amigos, professores. Vai então diferenciando a qualidade de seus vínculos, nutrindo-se de diferentes fontes, em contatos de diferentes níveis de nutrição.
Podemos fantasiar que o bebê se alimentava 50% de leite e 50% daquele “amor” do seu cuidador e que, ao crescer, começa a diluir os 50% de amor em outros contatos humanos menos intensos, porém com um número maior de pessoas. Essa especialização de contatos humanos acaba por dar origem, mais tarde, a duas importantes fontes nutrientes de afeto: a profissional e a afetivo-sexual. Destaco a área profissional porque ela se distingue da maioria das outras ao gerar um retorno concreto como “prova” de que somos aceitos e temos o nosso valor reconhecido socialmente, substanciando esse nosso “valor” através do nosso ganho e conquistas. O que é percebido através do contato afetivo e retorno emocional se torna “materializado” na área profissional. Destaco também o campo afetivo-sexual porque nele colocamos a parte não diluída que restou daquele contato humano íntimo, intenso e de “total” confiança que tivemos com nosso cuidador, e agora dirigimos para nosso par. É por isso que se usa falar que um relacionamento deve ser gratificante. É por isso que eu costumo dizer que a relação afetivo-sexual deve ser nutriente. O adulto saudável tende a buscar um par com o qual troque emoções mais intensas, intimidade, em quem sinta confiança, a quem se dedique e de quem sinta a dedicação e se nutra afetivamente. A nossa formação emocional é a história da nossa vida e nela há inúmeras estórias e, dessa forma, cada um de nós com sua própria história, tem também seu modo próprio de amar. O sentimento de amor varia muito de pessoa para pessoa e a qualidade do vínculo quem estabelecemos depende da qualidade das experiências que tivemos desde aquele vínculo inicial com nosso cuidador. O afeto pode ser intenso ou totalmente bloqueado. Pode ser positivo de troca construtiva e enriquecedora ou negativo de dominação, diminuição do “outro” ou mesmo sua destruição. A vida nos traz decepção, desengano, desilusão. Veja essa palavra: “desilusão” – sofremos por não estarmos “iludidos”? De certa forma sim: sofremos por uma perda imaterial, ilógica – emocional. Mesmo quando encontramos nosso par e a ele nos unimos, vamos também desenvolvendo uma história e nela também acontecem decepções e desilusões. A afetividade vai se transformando. Pode haver a quebra de confiança e a consequente queda ou total esvaziamento da dedicação. O relacionamento pode se tornar árido, estéril, nem um pouco nutriente e mesmo venenoso. Sem intimidade e confiança ainda “precisamos” de afeto e o vamos procurar no trabalho ou em outra relação que nos nutra (se não nos desiludimos). Caso nos tornemos áridos, vamos dizer que o “amor romântico” é ingenuidade (uma forma de o depreciar). Caso nossos ferimentos continuem abertos, nos tornamos estéreis, impotentes, amargos, solitários ou agressivos e destruidores, como resposta à dor (inconsciente) com a qual convivemos. Caso socializemos nossa dor, podemos buscar a necessidade de satisfação dessa necessidade (reconhecimento do nosso valor) nos tornando empreendedores e workaholic. Podemos fugir desse fantasma e também negar sua existência, mas de diversas maneiras poderemos sentir sua presença. O amor romântico pode então ser visto como ilusão, no sentido de que é utópico se o tomamos como pronto e com vida própria. É também uma ilusão por existir no campo emocional e não ser facilmente justificável no campo racional, porém isso não implica em falta de objetividade. Não pode é ser tomado como ilusão, no sentido de inexistente, pois isso é negar necessidades fundamentais e a importância do contato humano. Negar sua existência é o mesmo que eliminar a possibilidade de uma das formas de expressão e busca de satisfação de necessidades emocionais, que acabarão por se expressar, gostemos ou não, de outras formas e com outra qualidade. Podemos não gostar dele e negá-lo, mas ele continuará existindo como forma/qualidade de vínculo e troca emocional sendo, para quem o aceitar, saudável e nutriente. O amor romântico está disponível a todas as pessoas, porém como diz o Shodoka: - uma mesa real é posta diante do faminto, mas ele se recusa a comer.
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