Ninhos, Castelos, Pares e Lares
Written by Carlos Messa   

É fácil observar que nenhuma sociedade que prescindiu da família, sobreviveu. Antropólogos, sociólogos e psicólogos estudaram diversas estruturas sociais, nas sociedades primitivas e nas modernas, encontrando em algumas, o matriarcado, em outras, diferentes formas de divisão de trabalho entre o casal mas em todas elas estava presente a família.

 

Na sociedade tecnológica contemporânea vemos vários indicadores do enfraquecimento dessa instituição. Vivendo nesse processo de transformação social é difícil identificar este ou aquele fator que provoca essa mudança. Podemos dizer de forma ampla

que o modelo sócio-econômico está gerando esse fenômeno e podemos ver os sinais mais claramente no carro-chefe desse modelo: os EUA. Vários movimentos lá existentes são como pontas de icebergs nos mostrando uma insatisfação da população, em relação a esse modelo, no qual a família perde espaço rapidamente. Há o grupo que prega a total abstinência sexual; um outro que defende que os casais não devem ter filhos, além dos mais antigos, que continuam afirmando que o casamento é uma instituição falida.

Alguns apregoam que as drogas é que determinam essa desestabilização, mas olhando com cuidado talvez possamos ver que a utilização de substâncias químicas representam mais uma fuga; uma conseqüência do que propriamente uma causa.

No âmbito psico-arquetípico a mudança mais significativa ocorrida nos últimos dois milênios é o deslocamento do poder do homem para a mulher, poder este que se processa nos últimos dois séculos e que neste momento deixa atônitos e incertos a todos nós. A equiparação legal, isto é, a asserção de direitos iguais para homens e mulheres contraria não só a orientação bíblica como também reflete a profunda alteração na ordem política. Não há mais impérios, pelo menos da forma como se constituíam há algumas décadas, assim como reis e rainhas hoje são quase figuras decorativas. O poder religioso luta para se manter entre alguns povos. O poder econômico se adaptou à um novo modelo e parece ser hoje o único marco que nos orienta em nosso horizonte.

Dentro do casamento essa alteração provoca o mesmo estupor e naturalmente grandes desentendimentos. A chamada “guerra conjugal” agora acontece em um novo campo, desconhecido para ambos os contendores. Permanecemos com nossa imagem do ninho, construímos nossos castelos e desejamos um par para realizar aquele lar imaginado. Desejamos o “outro”, porém em um outro cenário. A questão é que vivemos neste cenário!

Manter uma família não é nada fácil e cada vez mais se torna necessária a participação financeira dos dois componentes do casal. Isso por si só é um cenário novo e desconhecido, porém traz ainda alguns novos e específicos agravantes, fazendo, por exemplo, que a formação psíquica dos filhos sofra uma dramática alteração.

Nos grandes centros urbanos a formação das crianças foi quase inteiramente delegada à escola e esta, por mais competente que seja, está impossibilitada de suprir alguns aspectos necessários a essa formação, como por exemplo, o aspecto emocional.

Acontece que a formação de um indivíduo é muito complexa. Considerando apenas os aspectos mais objetivos, vemos que na sociedade tecnológica moderna, uma pessoa só está apta a responder financeiramente, depois dos 25 anos de idade e isso quer dizer que durante 25 anos ela utiliza recursos de outros (seus pais?) para sua formação. Em um meio agrícola simples, a pessoa pode oferecer alguma contribuição com cerca de 12 anos de idade, mas isso também não é pouco tempo!

No aspecto psíquico essa formação também exige um longo período e da mesma forma que o desenvolvimento escolar, há um aspecto cumulativo. Na família “antiga”, a criança recebia afeto, aceitação e um modelo. O que ocorre com a criança que não recebe afeto, aceitação e modelos para o seu desenvolvimento? Entre os órfãos e as chamadas crianças de rua vemos o resultado e o mais visível é o sentimento de não pertinência, isto é, a criança sente-se diferente, como se não fosse parte da sociedade. Isso a leva a buscar formas de sobreviver à margem dessa sociedade. O modelo psíquico que ela internalizou foi esse: não sou pertinente e esse modelo ela segue durante toda a sua vida.

Nas diferentes tentativas de lidar com o problema do menor abandonado vemos claramente que a sociedade ainda não compreendeu que a formação do indivíduo/cidadão, não ocorre apenas no nível intelectual, racional e lógico, mas sim esses recursos precisam se edificar sobre a base psicológica. Em São Paulo a antiga FEBEM talvez tenha sido um grande exemplo de que, mesmo com recursos razoáveis, os resultados ficam sempre abaixo das expectativas.

É dessa forma que vamos transferindo o estupor com o qual vivemos hoje, para os nossos filhos. Com a imagem desse ninho no qual cresceram, construirão os seus castelos e buscarão (ou não?) pares para representar a imagem arquetípica de lar.