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| Solidão |
| Written by Carlos Messa | |||
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Eu sei que você fez os seus castelos “Mesmo que seja eu” Há hoje uma queixa freqüente vinculada, no mais das vezes, ao relacionamento amoroso e aparentemente as dificuldades nesse campo têm crescido exponencialmente. É natural também que o motivo inicial da procura de ajuda profissional seja apenas a ponta de um iceberg e, além do motivo alegado inicialmente, haja fatores desconhecidos e/ou inconscientes. As mudanças sociais das últimas décadas contribuíram significativamente para essa ocorrência e aqui cabe ressaltar que a sociedade não assume (e portanto não corrige) os efeitos dos aspectos sociais sobre a saúde emocional dos indivíduos. Falamos de uma síndrome inominada, base da doença emocional, e que é fator determinante na ocorrência de outras síndromes conhecidas e também dos mais variados comportamentos denominados como desvios de conduta. O lado positivo dessa moeda é conhecido como Pertinens, que é o ser parte de algo/alguém, e prefiro esse termo ao Pertença, por este nos permitir ligá-lo apertencer. Pertinens, diferente de pertencer (Pertença) e nos coloca como parte de um conjunto. A debilidade ou ausência do sentimento de Pertinens não foi ainda nominada e vamos tratá-la aqui como sentimento de não-pertinens, para evitar o impertinens, análogo àimpertinência cujo emprego usual é distinto do que estamos tratando. O sentimento de solidão é parte integrante do sentimento de não-pertinen mas não só ele. O vazio existencial, muitas vezes base da depressão – a doença do século -, o sentimento de alheamento, de ser diferente de todo-o-resto, o sentimento de ausência, de estar só e de que o mundo é algo estranho e, eventualmente, indesejado compõem muitas vezes quadros de irritabilidade, impulsividade, agressões e homicídios ou, por outro lado, de apatia, abandono de si mesmo e suicídio. O não-Pertinens pode estar também na base da síndrome do pânico principalmente quando sua insurgência se dá diante da possibilidade da perda de eventuais vínculos afetivos. 1 – O não ser reconhecido = não ser aceito: (Úrsula dizendo ao seu marido) - “Em vez de andar por ai com essas novidades malucas, você devia era se ocupar dos seus filhos – replicou – Olhe como estão, abandonados ao Deus dará, como os burros. O sentimento de Pertinens surge ainda no ventre materno através da voz da mãe e do seu estado emocional gerado pelos sentimentos positivos em relação à gravidez. Se desenvolve através dos vínculos positivos na família mas também na escola (professores e colegas). Parte do ser reconhecido e se fortalece no ser aceito. 2 – Comportamento: - “Aureliano, o primeiro ser humano que nasceu em Macondo, ia fazer seis anos em março. Era silencioso e retraído. Tinha chorado no ventre da mãe e nasceu com os olhos abertos. Enquanto lhe cortavam o umbigo movia a cabeça de um lado para o outro, reconhecendo as coisas do quarto, e examinava o rosto das pessoas com uma curiosidade sem assombro. Depois, indiferente aos que vinham conhecê-lo, manteve a atenção concentrada no teto de palmas, que parecia estar quase desabando sob a tremenda pressão da chuva.” O não-Pertinens compromete as relações eu-mundo fazendo surgir o sentimento de estranheza: o mundo é estranho e/ou eu sou diferente. 2.1 – Imaturidade emocional: - (Aureliano, já adulto, se apaixona por Remédios que tinha cerca de nove anos.) - “A imagem de Remédios, a filha mais nova do delegado, que pela idade poderia ser sua filha, ficou doendo em alguma parte de seu corpo. Era uma sensação física que quase o incomodava para andar, como uma pedrinha no sapato” ... “Remédios se aproximou e fez algumas perguntas sobre o peixinho, que Aureliano não pôde responder devido a um repentino ataque de asma. Queria ficar para sempre junto desses olhos de esmeralda, muito perto dessa voz que a cada pergunta lhe dizia senhor com o mesmo respeito com que o dizia a seu pai.” (A primeira relação sexual de Aureliano, com Pilar Ternera, que tinha idade para ser sua mãe.) – “Venho dormir com a senhora – disse. Tinha a roupa manchada de lama e de vômito. ... encontrou Remédios transformada num pântano sem horizontes, cheirando a animal cru e a roupa recém-passada a ferro. Quando boiou estava chorando. Primeiro foram soluços involuntários e entrecortados. Depois esvaziou num manancial desatado, sentindo que algo tumefato e doloroso tinha arrebentado no seu interior. Ela esperou, coçando-lhe a cabeça com a ponta dos dedos, até que seu corpo se desocupasse da matéria escura que não o deixava viver. Então Pilar Ternera lhe perguntou: “Quem é?” E Aureliano lhe disse. Ela deu a risada que em outros tempos espantava os pombos e que agora nem acordava as crianças. “você vai ter que acabar de criá-la”.” 3 – Reações – (Aureliano se casa com Remédios e esta morre deixando dois filhos; depois disso Aureliano se denomina Coronel Aureliano Buendia e faz uma guerra de vinte anos sem saber exatamente o por quê.) “Na terça-feira, à noite, numa operação tresloucada, vinte e um homens menores de trinta anos, chefiados por Aureliano Buendia, armados com facas de mesa e ferros afiados, tomaram de assalto a guarnição, apoderaram-se das armas e fuzilaram no pátio o capitão e os quatro soldados...” Aureliano tinha alcançado algo próximo ao sentimento de Pertinens através de Remédios. Com seu falecimento ele retornara ao não-Pertinens e a guerra era a forma como exercia sua raiva, através de supostas lutas por direitos, valores, justiça. 4 – Herança – (As relações ocasionais durante a guerra geram filhos.) “Trouxeram crianças de todas as idades, de todas as cores, mas todos varões, e todos com um ar de solidão que não permitia pôr em dúvida o parentesco.” “Então o Coronel Aureliano Buendia tirou a tranca e viu na porta dezessete homens dos mais variados aspectos, de todos os tipos e cores, mas todos com um ar solitário que teria bastado para identificá-los em qualquer lugar da terra. Eram os seus filhos.” 5 – Herança, reconstrução de vínculos ou sintoma da solidão – (Aureliano José – filho de Aureliano Buendia, e Pilar Ternera – a que poderia ser sua mãe -, e Amaranta, irmã de Aureliano Buendia) – “Aureliano José não podia conciliar o sono enquanto não escutava a valsa das doze no relógio da sala, e a madura donzela cuja pele começava a entristecer não tinha um só instante de sossego enquanto não sentia deslizar no mosquiteiro aquele sonâmbulo que ela tinha criado, sem pensar que seria um paliativo para a sua solidão. Então, não só dormiram juntos, nus, trocando carícias extenuantes, como também se perseguiam pelos cantos da casa e se fechavam nos quartos a qualquer hora, num permanente estado de exaltação sem alívio.” A literatura exemplifica e torna mais visível aspectos que a realidade dissimula. Por outro lado nos acostumamos a dizer que a Psicologia não é uma ciência exata e isso permite que pensemos erroneamente, que não há exatidão nela. Se não é possível operações aritméticas simples como o 2 + 2 = 4, a psicologia como a medicina, permitem equações do tipo a + b = x onde x representa uma gama conhecida de possibilidades (por exemplo, Aureliano Buendia, ao invés de se casar com a menina Remédios, poderia exercer sua pulsão através do abuso sexual de menores). Então determinadas ocorrências em determinados períodos da vida, tendem a dificultar a ocorrência do sentimento de Pertinens. A ausência desse sentimento tende, diante de determinadas ocorrências, a provocar instabilidade emocional que é prejudicial ao indivíduo e à sociedade. Dessa forma, tomando como base que a fragilização dos vínculos implica na redução do potencial de realização produtiva do indivíduo, deveríamos estar atentos à formação do indivíduo já que: - quando os vínculos não existem desde o início, raramente a pessoa se desenvolve com alguma normalidade. A riqueza do indivíduo, no entanto, permite que ele encontre alternativas de correção de aspectos indesejáveis. Poderíamos entender então que a paixão e o casamento de Aureliano com Remédios (itens 2.1 e 3, acima) podem significar sintomas de seu distúrbio mas, por outro lado, o vínculo que ele estabeleceu com Remédios conteve seus eventuais comportamentos destrutivos, mas vieram a ocorrer depois da morte desta. Somos instados pela natureza humana a recompor um intenso vínculo com nosso semelhante. O homem busca estabelecer com uma mulher um vínculo que se aproxime em intensidade, com aquele conhecido na vida intra-uterina. A mulher busca um homem para desenvolver esse mesmo vínculo, através da procriação. A sociedade atual, por seu lado, vem estimulando cada vez mais o individualismo e a gratificação no prazer. Estamos, então, diante de um descompasso – quase uma contradição – entre a demanda da natureza e os estímulos sociais, daí a emergência dos distúrbios de relacionamento. As dificuldades de relacionamento, por seu lado, facilitam o estabelecimento de sentimentos de não-Pertinens nos eventuais filhos desse relacionamento, o que cria uma bola-de-neve: a sociedade favorece o surgimento de distúrbios emocionais nos indivíduos e indivíduos com distúrbios emocionais desenvolvem uma sociedade mais doentia. O tratamento individual nos consultórios de psicologia atende ao interesse individual, mas não é capaz de conter o crescimento das disfunções conhecidas e das que ainda surgirão, com base nessa questão de vínculos, isto é, não é capaz de atender ao interesse da sociedade. Dessa forma a solidão, o sentimento de vazio e alheamento; o não-Pertinens, já não podem ser vistos apenas como distúrbios do indivíduo mas precisam ser tratados através de políticas públicas. Já temos instituída a prática dos exames pré-natais, para garantir a saúde física das crianças. Devemos agregar à essa prática, a orientação pré-natal (e pós-natal), para favorecer a saúde emocional do indivíduo (e a futura Saúde Social).
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