Papéis, Filhos, Crise e Separação
Written by Carlos Messa   

 

Venho insistindo na influência que a conjuntura sócio-econômica em que estamos vivendo exerce sobre a família e a criação dos filhos. Pelas perguntas e argumentações que estão sendo feitas, me parece que é preciso detalhar um pouco mais a questão dos papéis de mãe e de pai.

Quando falamos em “papel de mãe” isso pode soar como uma representação com alguma similaridade à atuação esperada socialmente e a dos atores em uma peça teatral. Essa seria a parte consciente do nosso papel. A questão é um pouco mais intrincada pois o “papel” está guardado em nosso baú onde ficam as emoções que influenciam nosso comportamento, mas estão fora da nossa consciência e nos são de certa forma desconhecidas.

Mesmo que digamos que os homens são mais racionais, essas emoções desconhecidas e trancadas em um baú, acabam determinando decisões importantes também na vida dos “machos”.

O papel de mãe e de pai nos são transmitidos através dos genes. Isso não quer dizer que eles serão os mesmos eternamente. Nossas ações, atitudes, decisões e o comportamento em relação aos filhos, vão compor o “baú” de emoções de nossos filhos e dos filhos destes, de forma que em algumas gerações (e a ciência ainda não sabe quantas), uma nova forma de desempenhar esses papéis será transmitida através dos genes.

Essa é a origem principal da crise no desempenho dos papéis atualmente:

1 - Nossos genes nos transmitem um determinado “script” que foi estabelecido pelo desempenho de papéis em várias das antigas gerações e “precisamos” seguir o que ele diz que é o correto para o papel de pai ou de mãe

2 - a vivência que tivemos em nosso “ninho” original (o lar onde fomos criados) pode dizer que esse papel deve ser um pouco diferente

3 - nosso raciocínio lógico, nossa consciência e nossa experiência podem dizer coisas ainda mais diferentes.

Esses diferentes “mandados” podem representar uma crise que nos imobiliza.

Há ainda uma outra crise, com resultados dramáticos, mas composta por um conflito mais simples: o papel que devo desempenhar (script - roteiro) e o que consigo (ou sinto que sou capaz de) desempenhar.

A mulher que se sente incapaz ou menos competente para o papel de mãe, com toda a carga “sagrada” que muitas vezes as emoções do “baú” determinam, pode se sentir culpada, pode não conseguir engravidar, pode não desejar ter filhos, pode sentir que não tem o devido apoio do marido, pode “ver” que seu filho é problemático, pode cair em depressão, pode arranjar motivos para transferir o papel de mãe para um outro cuidador.

O Homem cujo “baú” lhe atribui o papel de provedor, pode ter consciência de que não precisa ser assim, mas evita o casamento, evita ter filhos, e frequentemente, caso tenha filhos e as condições financeiras sejam sentidas como aquém do que seria esperado do seu “papel”, escolhe a separação. Apesar da suposta “racionalidade” masculina, o homem pode não suportar a dor de uma suposta incompetência no desempenho de seu papel de pai (neste caso “provedor”).

Quando o casamento começa a patinar ou fazer água, principalmente após o nascimento do filho, é importante verificar se, além dos problemas de adaptação ao novo “desenho” da família, as demais dificuldades expostas, são realmente consistentes. Caso esses “problemas” sejam percebidos como sem fundamento, é possível que o motivo real seja um conflito inconsciente entre o papel de pai/mãe inscrito geneticamente e o que está sendo possível desempenhar. Surge a necessidade de criar alternativas e uma delas é a fantasia de que é possível fugir desse conflito através do término do casamento. Infelizmente isso não é uma solução pois o problema continua latente e reaparece quando outro relacionamento é estabelecido.

Se após a separação há o chamado “crescimento” do indivíduo e o conflito seja solucionado, mesmo assim é lamentável que aquela primeira relação tenha terminado sem que o casal possa, pouco depois, descrever os motivos que a fizeram fracassar: -”Por que aconteceu a separação?” Ninguém sabe, nem os dois principais atores.