Amar - Quem Nasce Sabendo?
Written by Carlos Messa   

Não paramos para pensar nisso, mas agimos como se fosse inerente à natureza humana saber amar. Não é.

Aprendemos o apego, o afeto, a empatia em nossa primeira infância. Nossos receptores de informações do mundo externo surgem quando estamos ainda no útero e, através deles vamos aprendendo a sentir. Levamos cerca de 20 anos (mas precisamos cada vez de mais tempo) para processarmos as informações percebidas e sentimentos que elas nos provocam, de forma integrada com a nossa lógica e julgamento.

Nascemos sim precisando do “outro” e, mais que alimentar-nos, é ele que, como um espelho refletindo nossa imagem, nos “prova” que temos uma existência. Precisamos do “outro” também quando adultos e é para que o “outro” reconheça o nosso valor, que lutamos pelo desenvolvimento profissional e pela casa na praia. Para os que sabem amar, no entanto, o “outro” é mais que isso, é uma possibilidade de troca extremamente gratificante e enriquecedora, muito além da auto-afirmação.

Ainda no útero vamos sentindo se o que nos é externo é bom ou ruim e, durante nossas primeiras vivências, até os dois ou três anos, é que aprendemos, segundo a qualidade da relação que tivemos com o adulto a quem nos ligamos, a construir vínculos com outras pessoas. É esse primeiro vínculo que se torna nosso modelo de relacionamento e é com esse adulto significativo que aprendemos o afeto e essa experiência nos leva a arriscar o estabelecimento de novos vínculos. Naturalmente nesse período surgem apenas os rudimentos – a matriz – da nossa forma de estabelecer as relações, mas é uma “matriz” e através dela é que repetiremos nosso roteiro relacional. Daí em diante vamos desenvolver e aperfeiçoar nossa “fábrica” de relacionamentos sobre esse alicerce, durante ao menos duas décadas.

A sociedade atual nos oferece um volume tão grande de informação, que as recebemos mesmo que não as busquemos. O teor dessa informação tende a afetar nossa matriz de relação já que nossa lógica nos diz que não só seria impossível ajudar a todos os que sofrem e se aproximam de nós em cada semáforo, como também seria dramático sofrer a cada tragédia que os jornais trazem até nós. Dessa forma vamos alterando aquela matriz de relação que construímos na primeira infância, anestesiando o processamento dessas informações e sendo parte ativa do que já está sendo chamado de sociedade do individualismo em função do alheamento afetivo ou, ao menos, da afetividade pragmática, se é que alguma coisa assim pode existir.

Esse alheamento ou na forma menos dolorosa, o pragmatismo afetivo, não é inócuo: ele nos torna reprodutores da aridez:

  • através das relações superficiais que estabelecemos

  • através das relações menos consistentes (não prioritárias) que desenvolvemos e ensinamos aos nossos filhos

  • na nossa não disposição a termos filhos.

No nível individual ele nos traz a insatisfação, no mais das vezes indefinida, gerando ansiedade e/ou depressão.

É assim que vamos tendo cada vez mais pessoas que desconhecem a gratificação de um vínculo consistente com uma outra ou ao menos, que se permitam manter esse vínculo por mais que algumas horas, dias ou semanas quando muito. Por outro lado, ao menos nas grandes metrópoles as crianças já não estão aprendendo a amar e uma grande parte dos adultos está sofrendo, sem atinar exatamente porque, já que é bem sucedida em várias áreas da vida.

O despertar da consciência para o motivo da insatisfação, quando ocorre, é muito lento pois o desenho social desestimula o caminho do afeto. Quanto mais lógicos nos tornamos, mais essa lógica nos mostra que estamos certos e que o afeto é não só uma inutilidade como também um perigo.

Os homens tem experiência de séculos a mais que as mulheres em mal sentir, antever e precaver.

Levadas ao mundo do trabalho, as mulheres aceleram seu desenvolvimento nessa mesma direção e, dessa forma, as crianças não estão aprendendo a amar (ou ao menos o afeto).

Hoje já podemos até mesmo ver em que área do cérebro o afeto é processado. Amar se aprende (ou não) e para quem se sensibiliza com os números do “aquecimento global”, talvez a sociedade pareça carente de afeto e os números da edição “Família Brasileira” (da Folha 07/10/2007) comprovem essa carência, mostrando a necessidade de apoio, como um “elogio à loucura"

(parafraseando Erasmo de Rotterdam), à quem se disponha a ter filhos e se dedicar á eles. Para quem tem filhos e está envolvido na profissão, o mínimo que deve ser feito é dar especial atenção à escola. Ela é o segundo vínculo, logo após aquele primordial, capaz de construir (e também reparar ou danificar) uma matriz de relação saudável nas crianças.