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| Estar Com - "Con Jugo" |
| Written by Carlos Messa | |||
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Não é preciso viver com alguém. Podemos estabelecer relações com os demais à nossa maneira. A natureza, no entanto, coloca em nós alguns impulsos – instintos. Vamos ver detalhes de alguns deles, detalhes esses que acabam levando boa parte das pessoas a buscarem uma relação a dois, afetivo-sexual, duradoura. Um primeiro processo natural: Nosso cérebro utiliza alguns recursos que podemos comparar ao imprinting nos animais irracionais. Imprinting é o que faz com que o pintinho considere como sua mãe, a pata que o chocou (ou o patinho que considera como sendo sua mãe, a galinha que encontrou ao quebrar a casca do ovo onde estava sendo chocado). Se vimos o mundo composto por nossa mãe e nosso pai, isso fica gravado em nosso cérebro e, mesmo que não pensemos racionalmente nisso, temos uma tendência instintiva a reproduzir esse quadro impresso em nossa mente. Um segundo processo, que tem uma atuação um pouco mais ampla é chamado de ninho. O útero é o nosso ninho primordial. Ele é quentinho, confortável, não há som, luz ou aspereza alguma que nos incomode. Nele temos TODAS as nossas necessidades atendidas. Também como um imprintig, passamos o resto de nossas vidas buscando estar de volta a esse ninho. Mais tarde tentaremos reproduzir aquele ninho primeiro, ao desenharmos o nosso castelo, nosso lar, onde estaríamos seguros, confortáveis, aconchegados, inteiros, onde seríamos amados e onde poderíamos amar sem o risco do sofrimento (na sociedade – no mundo externo, amar é muuuuito arriscado!). O terceiro processo que nos leva, também ilogicamente, ao casamento é a incompletude. Apenas para que não esqueçamos: - mesmo que não pensemos nisso – carregamos um sentimento de incompletude, isto é, de que não somos completos. Li há pouco tempo um comentário que estimulava os jovens ao relacionamento eventual, justificando essa primazia com a afirmação de que o relacionamento romântico e duradouro pressupõe que somos incompletos e que, ao contrário, somos completos e por isso NÃO precisamos do outro. Pura bobagem, porém isso pouco importa porque, de qualquer forma é uma discussão inútil definir se realmente somos ou não completos. O que importa é o sentimento, abaixo do limiar da consciência, presente nas pessoas consideradas “normais”. Também há o fato concreto: não somos capazes, sozinhos, de cumprir nosso potencial de reprodução; cada um dos diferentes sexos depende do outro - nosso aparelho reprodutivo não consegue realizar sua função – reproduzir -, sem o aparelho reprodutivo do gênero oposto ao nosso. Essa visão já pode estar no nível consciente, na adolescência. É prova racional e cabal de que somos incompletos, mas a prova racional e lógica pouco importa porque, com ou sem ela, carregamos o sentimento de sermos incompletos. “A relação fusional é universal; o cintilamento do isomorfismo nunca abandona o casal nem a família... Fusão, isomorfismo, cristalizam-se no sentimento de pertença.” (“Um Divã para a Família” Alberto Eiguer) O quarto e último dos mais importantes impulsores instintivos é o outro. Esse impulsor destaca-se mais no campo individual do que em relação à espécie e organização social, como os anteriores, mas também exerce influência significativa nestas. Como disse Sartre, o inferno são os outros. No útero somos tudo – a única existência, até que começamos a desconfiar de que isso não seja verdade porque ouvimos vozes – sons – que não fomos nós que emitimos. O nascimento confirma a tragédia: existem outros! Não sou o centro do universo!!! E agora? Querendo ou não, vou ter que lidar com isso – com o outro. Bem, há também coisas boas: o outro (mãe) me supre, me diverte, me alimenta e é i n s t i g a n t e ! A minha vida depende do outro. É por ele que trabalho para ser promovido e é para mostrar a ele que compro o carro recém-lançado. É ele que autentica, como faz o cartório com minha assinatura, minha existência (sem o outro, não há por quê fazer algo; sem a continuidade possível (reprodução > o outro -), a minha vida não faz sentido!). É ele que me confere também a oportunidade de realizações no âmbito da espécie: a reprodução (no âmbito individual, a realização do meu impulso instintivo e/ou a minha porção divina que é gerar a vida). Para o homem o outro representa a possibilidade de se aproximar o máximo possível do útero (no sentido figurado!) ou, dizendo melhor, daquele encontro íntimo que vivemos quando estávamos no útero. Para a mulher, muito mais que isso, representa a possibilidade real de refazer de forma integral aquele encontro íntimo, porque ela é capaz de ter o outro, dentro de si em ligação total. O orgasmo agrega também alguns desses aspectos: a intimidade e a entrega/abandono de si na relação com o outro.
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