O Fantasma de uma Emoção
Written by Carlos Messa   

 

Chamamos de “fantasma” uma emoção vivida no passado que continua “viva”, se fazendo presente sempre que uma ocorrência semelhante a busque e a coloque em prática, como uma resposta automática “Prêt-à-porter”.

É dessa forma que “fantasma” é apenas um nome, pois ela está ali, guardada como um recurso disponível, pronto para ser usado em eventos similares ao original – ela é parte de nós, como um aplicativo é parte de um sistema computacional maior.

Dessa forma somos um acumulado de “soluções”, isto é, respostas prontas já utilizadas em outros momentos, registradas em função da emoção vivida na época.

Assim mantemos vivos os registros das vivências (emoções) que tivemos ainda no útero e na mais tenra infância, notadamente nas nos relações com o mundo externo (nossos pais, cuidadores e objetos como o leite (quantidade, temperatura, etc.)). Não nos recordamos delas, não estão em nossos registros de memória, não há imagem de referência, mas há um sentimento em relação a determinado evento/ocorrência.

É pela existência desses “fantasmas” que respondemos automática e prontamente a determinadas ocorrências do nosso dia-a-dia; é por isso que respondemos de maneira incoerente ao nosso par, na relação amorosa que estabelecemos: nosso raciocínio lógico nos diz que deveríamos responder de forma amorosa e, quando vemos já respondemos de forma ríspida, superficial, burocrática, agressiva; não conseguimos segurar – saiu!

Nossas relações, por isso, não são fruto do nosso raciocínio lógico e nem mesmo dos nossos desejos conscientes, mas sim da nossa história.

Como uma cebola, temos camadas e camadas de vivências e podemos notar que em alguns locais há uma camada perfeita, corrigindo uma reentrância – um “machucado” da camada anterior – e em outro local há uma imperfeição que não é recente, ela está presente em várias das camadas anteriores sendo que as novas camadas foram tomando a forma daquela imperfeição, perpetuando-a.

Esse é um dos principais motivos que explica a frase: “Os homens são todos iguais” e “As mulheres são todas iguais” – na verdade nossa emoção/reação a determinadas ocorrências é que é sempre igual.

Na psicoterapia de casais se busca identificar esses fantasmas. Isso só não basta; é necessário que a pessoa que se dispôs ao processo de terapia conjugal enfrente esses “fantasmas” e exercite, durante o processo, novas formas de resposta diante de determinado evento relacional. Esse trabalho recobre, em uma nova camada, o que chamamos de “imperfeições” do passado – o que significa responder de forma coerente com seu desejo consciente e à luz dos recursos que a maturidade oferece, ao invés da resposta automática ditada pelo automatismo infantil.

“Eu perco a razão” – “Eu saio de mim” – “Me dá um ódio” – “Eu fico cego” – são frases  comuns na terapia de casal referindo-se a respostas diante de um “fantasma”.

Não precisamos “perder a razão” nem sair de nós mesmos; precisamos ao contrário é “ampliar a razão entrando em nós mesmos”.

Em função deste aspecto e das características das chamadas “imperfeições” é que a psicoterapia conjugal pode ocorrer em separado, em um desenho que se aproxima da psicoterapia individual.