Infelicidade e Separação
Written by Carlos Messa   

 

Tenho recebido de amigos “conselhos” para não citar canções populares em meus textos, pois isso pode chocar alguns leitores.

Explico sempre que a música nos faz contato através da emoção e que recolho das canções que fizeram muito sucesso, aquele pedaço da “verdade” que foi sentido por um enorme contingente de pessoas. Cito por isso roqueiros, sertanejos, bregas, mpb, etc., indiscriminadamente, considerando apenas o “toque” alcançado em seu público e não como elogio a uma eventual qualidade musical, sobre o que não sou qualificado para opinar. A visão exposta na canção, vinculo com aspectos técnicos.

É dessa forma que este texto “salvou-se” de receber o título de Não aprendi a dizer Adeus, título da letra de uma canção de Joel Marques, grande sucesso de Leandro e Leonardo, cantada sem o “a”: - “não aprendi dizer adeus”.

Na Terapia de Casal é freqüente que se busque a saída para o dilema: continuar em uma relação difícil ou separar-se.

Dois sentimentos contraditórios são ambivalentes:

a)      - há a percepção clara que a relação é insatisfatória ou mesmo negativa/destrutiva, o que sugere uma mudança (melhoria ou separação)

b)      – a possibilidade da separação pode até mesmo passar pela consciência, porém é “impensável”, quero dizer que é desejada em alguns momentos, mas pensar nela ou desejá-la é aterrorizante e mesmo paralisante.

Provavelmente esse foi um dos pontos de toque da canção de Joel Marques: “não aprendi a dizer adeus”.

O mais freqüente é que esteja ocorrendo uma relação fusional onde o ego de um dos componentes está, em algum de seus aspectos, diluído em aspectos do outro.

“Como separar-se de si mesmo?”

Por outro lado, como conviver com a anulação de parte de si mesmo?

As opções mais freqüentes, dada a falta de informação e mesmo recursos, são: render-se ao que parece inevitável, acomodando-se a alguma vantagem que a união oferece (continuando infeliz), e preparar-se, juntar forças, contribuir para uma deterioração insuportável da relação, para conseguir finalmente a “liberdade”: separar-se (e refazer uma “mesma” relação simbiótica em seguida).

Há um segundo verso: “tenho que aceitar que amores vem e vão, são aves de verão”, no qual há a tentativa de apontar uma saída para o dilema descrito acima.

A tentativa é de manter uma relação “de superfície”, evitando com isso a fusão, o que exige que se esteja preparado, também, para a freqüente mudança de parceiro. Também nesses casos se responsabiliza o “outro” pelo insucesso. Essas duas opções insatisfatórias só prevalecem, não apenas pela falta de informação ou recursos, mas principalmente pela crença de que o relacionamento “acontece” e não devemos nem podemos fazer nada para alterá-lo (ou construí-lo!).

A conseqüência dessa visão foi expressa em outra canção popular: “The End”, dos Beatles, que encerra o disco “Abbey Road”, composta por Paul McCartney e alterada por J. Lennon,”: "And, in the end, the love you take/ Is equal to the love you make."